Zona de contágio
Fichamento do artigo "Zona de contágio"1 de Alana Moraes e Henrique Parra.
Abstract
O artigo apresenta algumas questões que constituíram o percurso do Laboratório Zona de Contágio, uma experiência coletiva de pesquisa situada na pandemia do Covid-19 no Brasil, entre março e dezembro de 2020. O texto percorre discussões conceituais sobre o próprio fazer científico do laboratório e lança algumas hipóteses para pensar uma ciência da coexistência em tempos de catástrofes. A Zona de Contágio surge da urgência de refletir, da perspectiva de corpos em regime de confinamento doméstico, como poderíamos rastrear a paisagem produzida pelo acontecimento pandêmico: um evento que conecta de forma interescalar e imediata nossos corpos aos circuitos planetários de patógenos, mas também às formas desiguais e neocoloniais de distribuição do risco. Refletimos sobre a coexistência como fazer ontoepistemológico, experimentações de outros modos de conhecer.
Tempo das catástrofes (Stengers) e pandemia de COVID-19
Pouco mais de uma década depois da crise de 2008, a pandemia provocada pelo vírus Sars-CoV-2 lançaria o planeta e seus viventes em mais uma suspensão geo-histórica. Desta vez, as evidências mais intangíveis da mudança climática, como a taxa crescente de CO2 ou a acidificação dos oceanos puderam ser substituídas pela experiência coletiva tangível e avassaladora da falta de ar. O problema da relação do humano com o mundo vivo deixa de ser um assunto de "ambientalistas catastrofistas" para se instalar agora nos baixos níveis de oxigenação do sangue e no pesadelo da asfixia, aliás, já experimentado há muito tempo por outras espécies e uma parcela significativa de humanos. Por outro lado, a reivindicação humana ambiental-paternalista impressa muitas vezes na ideia de "proteger a natureza" é finalmente deslocada pela constatação de que o que está em jogo mesmo é a sobrevivência do humano como espécie. (p. 2)
Progresso e guerra de mundos
Isabelle Stengers (2002) insiste que, seja quando falamos da ciência ou da sociedade, o progresso é a imagem definidora: “aquela que permite estruturar a história, separar o essencial do anedótico, fazer se comunicarem narrativa e significado” (Stengers, 2002, p.182). Assim, o {4} “progresso” é o que define e autoriza o que merece ser conservado ou aquilo que deve ser relegado; o progresso autoriza simplificar os relatos e faz a triagem das “histórias que importam” ou das evidências que podem ser convertidas em “fatos científicos relevantes”. A governamentalidade neoliberal tornou transparente, pela gestão da crise pandêmica, que a Guerra de Mundos em curso atualiza os imperativos do progresso seja pelo tecnosolucionismo que recupera o cientificismo de contornos positivistas [3], seja revigorando as metáforas de guerra (na “guerra contra o vírus”) que trazem com elas a inevitabilidade de vidas perdidas ou a convocação de sacrifícios desigualmente distribuídos, a mobilização por um “bem maior”. Um regime que opera pela distribuição desigual e racialmente marcada do “direito à respiração”, conforme a imagem precisa de Mbembe (2020). Uma experiência desse tipo tem a força de embaralhar as cartas conceituais distribuídas pelos modernos e nos faz repensar, coletivamente, sobre as fronteiras tão bem vigiadas entre ciência e política ou natureza e cultura. (p. 3-4)
Fazer existir um mundo alternativo
O livro de Isabelle Stengers lança a hipótese de uma ciência para os tempos de catástrofe capaz de convocar aqueles que "lutam por um outro mundo" para aprender a fazê-lo existir. Uma ciência da catástrofe não poderá existir, no entanto, sem partir da coexistência multiespécie que torna possível a vida na terra deslocando, dessa forma, a própria ideia de um sujeito do conhecimento que observa o mundo desde uma posição epistemológica protegida pela externalidade. A experiência pandêmica do confinamento fez emergir um conjunto de relações que nos forçam a pensar novos desenhos disciplinares, novos dispositivos de pesquisa e deslocamentos epistemológicos há tanto tempo adiados. (p. 4)
Autopoiesis e simpoisis (Haraway)
Donna Haraway (2019) afirma que muitos sistemas que a biologia imaginava autopoiéticos são, na realidade, simpoiéticos. Se os sistemas autopoiéticos dependem de unidades autônomas autoproduzidas, os sistemas simpoiéticos são produzidos de maneira relacional, em interações, sustentados pela capacidade de criar e fazer com outros. Para além dos "entes" - "indivíduo", "sociedade" ou "sujeitos", o que mais importaria para a vida são os "entres". Estar vivo, segue Donna Haraway (2019), é um trabalho de “criaturas mortais entrelaçadas em inúmeras configurações inacabadas de lugares, tempos, assuntos, significados”; A vida seria uma {6} composição de fios misturados como atestam os microbiomas que habitam nossos corpos em milhões de microrganismos e sem os quais não poderíamos viver. Mesmo “saber e pensar", como nota Bella Casa "são inconcebíveis sem uma multiplicidade de relações que também tornam possíveis os mundos com os quais pensamos” (Bellacasa, 2012, p.198). Puig de la Bellacasa afirma a pertinência de pensarmos as práticas de cuidado, não como uma questão “normativa-moralista” e para além de um estado ético-afetivo. Cuidar “envolve o engajamento material nos trabalhos para sustentar mundos interdependentes, trabalhos geralmente associados à exploração e dominação” (Bellacasa, 2012, p.198). (p. 5-6)
Laboratório emergente do Comum
Nesse ensaio, pretendemos descrever alguns aspectos do processo de pesquisa que conduzimos de março a dezembro de 2020. Diante da catástrofe pandêmica, experimentamos o que seria um laboratório emergente do Comum implicado em práticas de cuidado, coexistências e tecnologias da relação que tornam possíveis outras cocriações em tempos de catástrofe, fazendo reverberar “uma arte da atenção imanente, uma arte empírica que investiga o que é bom ou nocivo – uma arte que o nosso apego à verdade muitas vezes nos faz desprezar, entendendo-a como superstição” (Stengers, 2017, p.12). O capitalismo de catástrofe, lembra Stengers, tem menos a ver com a "exploração da força de trabalho", mas intensifica os modos pelos quais se apropria do que é o Comum - aquilo que só pode ser produzido pela relação entre humanos mas também entre humanos e outras espécies, outros que humanos, da variedade da vida em ambientes de simbioses, passando pelas formas de produção de conhecimento, comunicação, o ar que respiramos, a terra e seus nutrientes; formas de vida que, pela criação e defesa do Comum em mundos interdependentes agem pela produção de saúdes mais do que pela disseminação de doenças e que seguem, por isso, tumultuando os regimes proprietários que hoje sustentam o funcionamento das Big Farm e das Big Pharma. (p. 6)
Raquel Gutiérrez, Mina Trujillo e Lucia Linsalata (2016: 2) também discutem outras imagens do político a partir da criação e sustentação do Comum: uma politicidade que se faz por uma “multiplicidade de relações de interdependência entre os membros das comunidades humanas e entre comunidades do mundo humano e não humano”. Com Lugones (2014: 4) nos pareceu importante pensar o Laboratório do Comum como Zona de Contágio a partir da afirmação de uma {7} política do conhecimento como “proliferação relacional subjetiva/intersubjetiva de libertação, tanto adaptativa e criativamente opositiva”. Uma ciência das coexistências nos afasta assim de um modelo epistemológico que “presume a prioridade do agente em relação ao ato” (Butler, 2003:212), e nos faz investigar práticas de conhecimento que não estão contidas em nenhum predicado de um corpo, mas no “irredutível acontecimento de seu ser-em-situação” (Tiqqun, 2019:18). (p. 7-8)
A pandemia no Brasil
Na segunda quinzena de março de 2020, no Brasil, deparamo-nos com a urgência pandêmica provocada pelo vírus Sars-CoV-2, o coronavírus. As notícias que chegavam dos países inicialmente afetados e que vivenciavam com algumas semanas de antecedência os impactos do coronavírus, produziam imagens de um futuro incerto. Sabia-se com antecedência a gravidade da situação e o que as autoridades estatais, os sistemas de saúde e a população poderiam fazer para minimizar o impacto inicial da pandemia. Ainda assim, não tínhamos ideia do que estaria porvir, especialmente no caso brasileiro: Como seríamos atravessados por este acontecimento? Como seria viver uma pandemia em um país que hoje é um dos laboratórios do autoritarismo neocolonial no mundo? O que ela poderia provocar nas configurações do poder em termos do governo da vida? Por quanto tempo estaríamos mergulhados em rotinas de isolamento doméstico e protocolos de biossegurança? Como o governo federal, responsável pela precarização do sistema público de saúde e pela corrosão de infraestruturas coletivas, reconhecidamente promotor do agravamento da crise sanitária, iria atuar? (p. 7)
Pensar com a pandemia
A intrusão viral coloca-nos diante da constatação de que nossos modos de vida e os regimes dominantes de produção de conhecimento científico são parte do problema que produz a pandemia: o extrativismo neocolonial e a excepcionalismo epistêmico antropocêntrico e racializado são hoje partes constitutivas dos modos de funcionamento da grande ciência e dos desenhos tecnológicos. Em seu livro "Pandemia e Agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência", Rob Wallace (2020) mostra, entre outras coisas, como muitas universidades já atuam em colaboração com projetos de inovação tecnológica junto ao agronegócio, incluindo a compra de terras cultiváveis na África. Mas para além das colaborações financeiras, o biólogo chama atenção para outra armadilha na produção contemporânea do conhecimento que tem a ver com as dinâmicas de especialização. Os especialistas são acionados quando algum problema vem à tona e cabe a eles, junto às instituições governamentais, a decisão sobre o que fazer. O que se perde nessa economia da especialização e do tecno-solucionismo é a possibilidade da produção de conhecimento não apenas "responder" aos problemas e aos poderes que decidem sobre nossas vidas (na maior parte das vezes produtores dos próprios problemas), mas suscitar outros problemas e alianças ou mesmo produzir objeções às decisões que, a despeito de conduzir nossas vidas em muitas dimensões, são fabricadas em circuitos de opacidade. (p. 8)
Habitar a pandemia, zona de contágio
Tendo essas questões em mente, imaginamos que uma investigação implicada em habitar o {9} acontecimento Covid-19 poderia promover a proliferação de zonas de contágio entre diferentes disciplinas e saberes, reconhecendo a coexistência de diferentes formas de vida e o entrelaçamento multiagencial (humanos, não-humanos, multiespécies) na fabricação simpoética de diferentes mundos, corpos e lugares. Também inspirados pelo pensamento de Denise Ferreira da Silva (2019) e suas reflexões sobre a Negridade, não nos parece mais possível pensar a prática do conhecimento sem ter em conta "a implicabilidade profunda que prevalece na existência, ou seja, matéria imageada como contingência e possibilidade em vez de necessidade e determinabilidade” (Ferreira da Silva, 2019, p.114). (p. 8-9)
Evidentemente a ideia de uma "zona contágio" como prática de conhecimento assumiria o risco de acionar uma palavra que, em tempos pandêmicos, é associada a uma experiência crítica da doença. No entanto, a noção de contágio há muito tempo aparece na filosofia como imagem promissora para aquelas relações que escapam das imagens de controle do sujeito ou da agência humana - uma situação de contágio nos obriga a pensar pelos regimes de afecções entre criaturas e nos faz considerar elementos que não são imediatamente visíveis, ela "carrega partículas de mundos diversos e os espalha a seu bel prazer, misturando domínios e embaralhando os gêneros, espécies, linhagens e hereditariedades" (Pelbart, 2015, s/p). O contágio também nos apresenta uma outra imagem para a "natureza", como já sugeriam Deleuze e Guattari:
o contágio, a epidemia coloca em jogo termos inteiramente heterogêneos: por exemplo, um homem, um animal e uma bactéria, um vírus, uma molécula, um microorganismo. Ou, como para a trufa, uma árvore, uma mosca e um porco. Combinações que não são genéticas nem estruturais, inter-reinos, participações contra a natureza, mas a Natureza só procede assim, contra si mesma. (Deleuze; Guattari, 1997, p. 22-3)
(p. 9)
Uma zona de contágio seria, portanto, contra-disciplinar e parte do reconhecimento da vulnerabilidade, heterogeneidade e inconstância dos corpos que a constitui, mas também da instabilidade do próprio fazer científico. Em uma zona de contágio não existe um privilégio epistemológico que garanta uma visão total do acontecimento, mas o conhecimento da situação acontece pela disponibilidade de composição entre criaturas e pela atuação em uma teia delicada {10} de interdependência. “O que há em nossa maneira de perceber que nos faz não enxergar as interdependências delicadas em um sistema ecológico, que dão a ele sua integridade? Nós não as vemos, e, por esse motivo, nós as quebramos”, lembra Bateson [4]. (p. 9-10)
Laboratório Zona de Contágio
O laboratório Zona de Contágio lançava então a hipótese de uma ciência do contato e do risco, feita por corpos sensores implicados e afetados pela iminência febril. Sobretudo, nos parecia urgente refletir sobre como corpos em regime de confinamento doméstico poderiam rastrear a nova paisagem de escala produzida pelo acontecimento pandêmico: um evento que conecta de forma imediata nossos corpos aos circuitos planetários de patógenos, mas também às formas desiguais e neocoloniais de distribuição do risco. O confinamento, em diferentes regimes de poder, é o que conjuga as forças globais de "segurança" na regulação da política carcerária racializada ao redor do mundo, dos animais que tornam-se mercadorias biológicas para o agronegócio e a indústria de alimentos, nos inúmeros campos de refugiados, nas periferias militarizadas, nos corpos feminilizados que precisam sustentar a vida coletiva nos circuitos domésticos nos quais intimidade e poder, muitas vezes, produzem cotidianos de sofrimento, violência e adoecimento. (p. 10)
Do laboratório do Comum Campos Elíseos ao laboratório Zona de Contágio
Nosso grupo de pesquisa havia programado um conjunto de atividades para o primeiro semestre de 2020, dando continuidade às experimentações desenvolvidas no âmbito do “Laboratório do Comum Campos Elíseos: tecnopolíticas do fazer-bairro”, realizado em 2019 (Moraes & Parra, 2020). Diante da catástrofe que se anunciava e face à impossibilidade de seguir praticando as atividades presenciais previamente planejadas no território onde se situa a difamada “cracolândia”, decidimos rapidamente que era necessário instalar uma outra prática investigativa. A pandemia também revelava de forma inequívoca os limites da vida metropolitana e as infraestruturas que conduzem nossas vidas em territórios cujos dispositivos atuam pela circulação de valor e pelas dinâmicas de apropriação/especulação sobre formas de trocas e solidariedade que fazem um território a partir das relações que os constituem. Durante da pandemia, o território conhecido como “cracolândia” seguia sendo duramente reprimido ainda que suas práticas de interdependência mostravam-se como a única infraestrutura coletiva de cuidado do qual podia contar grande parte das pessoas que por ali se vinculam. (p. 10)
Convocatória Zona de Contágio (março 2020)
A Zona de Contágio é um laboratório situado, prática coletiva de uma ciência do contato implicada em habitar a pandemia COVID-19 como um acontecimento: “um acontecimento está no interior da existência e das estratégias que o perpassam”. Ele surge como uma plataforma de convergência entre pesquisadorxs-ativistas cujo trabalho de investigação viu-se forçado a pensar com a intrusão viral. Uma encruzilhada.[...]
[...] Estamos na encruzilhada Hobbes x Espinosa; o Estado e a hipótese do Comum! O momento em que desejamos que o Estado tome medidas de exceção de controle populacional em nome da segurança sanitária, é o momento em que renunciamos à nossa potência de cuidado da saúde coletiva. Seremos capazes de construir alternativas com nossa inteligência coletiva? Como ativar o Comum, a potência de produção da saúde entre todos, promovendo vínculos solidários de cuidado coletivo? Como infraestruturar as estratégias, dispositivos, tecnologias, diferenças, práticas e conhecimentos que possam dar lugar a essas formas de vida?
A natureza do poder se modificou de tal forma que hoje confunde-se com a própria vida. Está na paisagem da cidade e suas infraestruturas, nas centenas de dispositivos que conduzem nossa atenção, localização, nas catracas, na produção dos desejos e das frustrações; nas centenas de outros dispositivos que nos conduzem à novas formas de desempenho; novas formas de concorrência.
Os arranjos sociotécnicos ao mesmo tempo vigiam e controlam toda possibilidade de fuga com outros inúmeros dispositivos de neutralização preventiva. À distância, a algoritmização da vida bloqueia qualquer possibilidade de imprevisto, de acontecimento e abertura. O poder se organiza de forma imanente à vida e sua expressão de exterioridade é apenas uma expressão performativa e mais visível dele – ainda que nos pareça mais confortável imaginar que o Poder está lá, sentado em uma cadeira. “Uma perspectiva revolucionária já não tem a ver com a reorganização institucional da sociedade, mas com a configuração técnica dos mundos”. Na metrópole, assinala o Conselho Noturno (2019), o que encaramos não é mais o velho poder que dá ordens, o poder que localiza-{12}se desde uma exterioridade, mas uma forma de poder que logrou constituir-se como a ordem mesmo desse mundo. “A metrópole é o simulacro territorial efetivo de um mapa sem relação com nenhum território” (Conselho Noturno, 2019).
Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de corpos neoliberalizados, Zona de Contágio convida ao diálogo praticantes que desejam tensionar as modernas e habituais fronteiras entre ciência e política; entre corpos e pensamento. Assumir nossa debilidade existencial como ponto de partida para pensar os deslocamentos do político. Pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”; encontros. Ciência de contato. Saber qual território habitamos, qual é a terra que pisamos quando falamos “cidade”, quais as relações que a constituem, quais são os saberes desautorizados, os saberes sujeitados, os saberes das lutas que desejamos convocar? Uma ciência objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade. Uma ciência de combate que acontece entre corpos e suas diferenças.
Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura- se como um dispositivo de pesquisa e intervenção na medida em que a produção coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabricação de uma vida não-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social.
A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações dos nossos tempos: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir “inimigos”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu (fragmento da convocatória publicada em Zona de Contágio, 2020). (p. 11-2)
Investigações sobre o provável e o possível
A partir da convocatória inicial e da abertura de um canal de intervenções no site, recebemos textos, fotografias, áudios, vídeos, a partir dos quais começamos a tramar um fio investigativo que pudéssemos rastrear: os fios do provável que já apontavam para a reorganização dos poderes tecnototalitários e dos dispositivos reordenadores da vida que conjugavam o trabalho pago com o trabalho não pago, a intensificação da precariedade; mas também os fios do possível que ensaiavam formas de cooperação, novos acordos coletivos, a luta contra as normalizações das mortes e as muitas formas de recusa à chantagem da autosuficiência empreendedora neoliberal. A Zona de Contágio formulava um pouco, a cada encontro, o que seria uma ciência da coexistência atuando pela experimentação e a invenção de uma linguagem comum, pelos sentidos que dão passagem a uma experiência singular e coletiva. Construímos no percurso uma cartografia de problemas que perseguia o embaralhamento de escalas e perspectivas: pensar a forma social da monocultura pela domesticidade e o regime de sexo-gênero; refletir sobre e com o confinamento como experiência humana e não-humana; especular sobre o que seria uma política dos viventes a partir de alianças multiespécies na guerra contra a simplificação ecológica, sexual e política. (p. 14)
As primeiras questões se impuseram: Como iniciar uma conversação que acolhesse diferentes linguagens (escrita, audiovisual, sonora, poética) e saberes disciplinares e extra-disciplinares? Como seguir juntas, mas em condição de isolamento social e interação virtual, alimentando uma {15} conversação entre pessoas que não se conheciam? Quais percursos de pesquisa se abririam? Diante dos intensos fluxos filosóficos, da saturação metafísica, semiótica, informacional, propusemos uma desaceleração do pensamento; uma respiração diafragmática que nos conduzisse às questões muitos simples que poderiam ser respondidas por qualquer um. Uma ciência do comum deveria ser objetora ativa de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade, os grandes esquemas conceituais, infindáveis revisões bibliográficas. Como a vida na cidade e na casa é percebida e reordenada no interior desse acontecimento? Como vivemos o cotidiano diante da catástrofe? Mais do que "respostas" ou "soluções" - como almeja uma parte significativa do fazer científico hoje - estávamos interessadas em pensar perguntas que suscitam outras perguntas, em ficar um pouco mais com os problemas e os esgotamentos já instalados no corpo. (p. 14-5)
Fragmentos de criações
A Zona de Contágio partia então do problema de como fazer de nossa vulnerabilidade o risco comum de uma dupla condição: uma política da experimentação e uma prática (onto)epistêmica corporificada, situada e que possa retomar nossa inteligência coletiva relacional de viver graças aos outros, de pensar graças aos outros. Alguns fragmentos de criações:
tentávamos adivinhar o futuro
já víamos a catástrofe anunciada
b. falou isso:
o que um dançarino faz quando tudo vai bem?
ele dança
e o que um dançarino faz durante uma guerra?
ele dança
o que faz o dançarino diante de uma pandemia mortífera?
ele ainda dança
e enquanto o mundo acaba o dançarino também dança
b. e d. são dançarinas {16}
eu sou anfíbia e não sei então o que fazer
nas últimas semanas visto a lentidão maior
só sei ser lenta
lenta e inútil
não sei pensar nada importante
fazer nada
leio pouco e muito devagar
(trecho de relato enviado por Luana Vannucchi no site da Zona de Contágio) (p. 15-6)
Para os que estão em isolamento, os mecanismos que incidem fortemente para produzir um afeto reativo de ansiedade são aqueles associados à tele- presença e à obrigação de comunicabilidade. Paul Virilio (1994) teorizava a tele-presença como a presença imediata de diferentes espaços – da vida doméstica, da educação, do trabalho, do lazer – uns aos outros. Parte importante da racionalidade neoliberal, na “comunidade pandêmica” a telepresença se centraliza: ‘Na comunidade pandêmica, a vida social, a vida laboral, a vida escolar e a vida política, todas se contraem na vida doméstica antes de explodirem na vida em rede. Tudo o que tinha conseguido escapar fugitivamente à captura digital de redes, lamentavelmente, submete-se e conecta-se’ (Nil Mata Reyes, 2020). Para manter minhas conexões com minha comunidade, corro o risco de estar comunicável com o patrão. Claro, nenhum desses efeitos foi produzido magicamente pelo vírus. A pandemia só agudizou efeitos biopolíticos que já estavam na ordem do dia da racionalidade neoliberal. O isolamento e a alienação do Outro já estavam no cardápio: qual é a forma ontológica da racionalidade neoliberal senão esse sujeito monádico, empreendedor de si mesmo, em competição com todos os outros sujeitos? Reforçado por mecanismos de administração de desempenho, constantemente correndo sem sair do lugar, buscando alcançar metas de desempenho irreais e que requerem sobre-trabalho para vencer na vida. A internalização subjetiva desses mecanismos leva à auto-vigilância e à associação do self com métricas de qualidade. É sobre esse sujeito, agora atomizado, que o distanciamento social irá incidir, ameaçando dissolver o que resta de comunidade. (trecho de relato enviado por Caio Maximino no blog da Zona de Contágio) (p. 16)
Experiência x algoritmos
O sentido forte da experiência - como discutimos intensamente na Zona de Contágio - parecia ser mesmo oposto às dinâmicas algorítmicas ou das plataformas de ensino nas quais o que está em jogo é a previsão/previsibilidade de condutas, a neutralização dos riscos e contingências, a recusa da fricção e do deslocamento - a ideia de "eficiência" possibilitada pelos dispositivos de conexão oferece à prática de produção de conhecimento um lugar estável, extremamente regulado e com pouco ou nenhum espaço para a experiência. (p. 18)
Experimentos
Pensando a partir desse problema Marina Guzzo elaborou uma série de práticas de retomada da presença que pudesse favorecer cada encontro na Zona de Contágio - partir do corpo confinado e suas possibilidades de expansão, mas também do cuidado com o espaço que criávamos, uma coreografia do contágio que permitia um espaço para o imprevisto, a coexistência como forma de resistir a separação dos corpos que o confinamento nos impõe. Experimentamos ligar microfones ao mesmo tempo, deixar vazar os ruídos e depois sustentar o difícil silêncio entre nós que, nas videoconferências, são sempre interrompidos rapidamente. Criamos coreografias que fossem capazes de atravessar os limites dos pequenos quadrados que nos cercavam na tela; ligamos e desligamos as câmeras reaparecendo em diferentes posições e enquadramentos, com diferentes objetos, plantas e memórias. Experimentamos ritmos improvisados, nos comovemos:
Entende-se por presença a capacidade movida pelo desejo de se estar simultaneamente no mesmo tempo e espaço em que se está. No presente, com atenção e vontade. A presença virtual ainda é uma novidade tão plana quanto a tela. O encontro com pessoas daí resultante não tem densidade pois, ao serem desligados microfones e câmeras para o bem da conexão possível, os interlocutores perdem os retornos dos sinais que regulam as trocas humanas. Fisionomias, gestos, murmúrios e suspiros precisam ser silenciados para que algum entendimento seja estabelecido. A comunicação será necessariamente precária, mas custa-se a aceitar. (Guzzo, 2020, enviado para o site do Zona de Contágio). (p. 19)
Explicitação da guerra de mundos
Durantes os percursos investigativos da Zona de Contágio, nos demos conta que talvez a maior fratura que a pandemia tenha contribuído para a anunciar tenha sido a longa guerra de mundos em que estamos metidos há séculos, mas que, nas últimas décadas intensificou-se de tal forma que agora é todo o tecido social, a vida, e as próprias formas de fazer Comum que estão erodindo e sendo expropriadas. Como pergunta Judith Butler: “O que significa agir em conjunto quando as condições de ação conjunta estão destruídas ou entrando em colapso?” (Butler, 2018, p.29). (p. 19)
Conjunção como ato criativo x conexão ~ algoritmos
A própria linguagem, o pensamento e o regime de sensibilidade, constatam a crescente incomunicabilidade diante colonização da lógica conectiva sobre a lógica conjuntiva, como nos ensina Franco “Bifo” Berardi (Berardi, 2017). “Conjunção” é como o filósofo Franco Berardi tem {20} nomeado uma matriz relacional marcada pela ambiguidade e vibração, pelos jogos de exceder significados estabelecidos e pelo contato entre corpos – o contrário da lógica “conectiva” e sobrecodificadora do capitalismo tecno-financeirizado e algoritmizado no qual os elementos não são alterados pela relação. A conjunção estabelece, portanto, um
ato criativo; ela cria um número infinito de constelações que não seguem a linha de uma ordem pré-concebida e nem se atrelam integrada a nenhum programa [...]. A concatenação conjuntiva é uma fonte de singularidade: se trata de um evento, não de uma estrutura” (Berardi, 2017, p. 19).
Produção do comum x monocultura tecnocientífica corporativa
Com a pandemia, constatamos que não nos faltam dados ou evidências sobre muitas questões: da dinâmica do contágio ao uso de máscaras, mas eles já não são capazes de produzir sentidos e experiências compartilhadas de mundo. Falta-nos, portanto, a possibilidade de produção de um Comum (a saúde coletiva como resposta de agenciamentos relacionais e multiespecíficos) capaz de conter a dispersão e mutações virais produzidas, em grande parte, pelo agronegócio amparado em novíssimas biotecnologias de simplificação ecológica e difundido socialmente por atitudes individualizantes contrárias à interdependência da vida e da saúde. Esperar pela vacina como a {21} única fórmula mágica capaz de conter a catástrofe é talvez a grande vitória da monocultura tecnocientífica corporativa, expressão do consórcio bioinfocapitalista entre Estado e Mercado cujo centro ainda é o controle e o governo da vida. (p. 20-1)
Este talvez seja um dos possíveis sentidos em que já estejamos vivendo a queda do céu. Nunca habitamos um mesmo mundo. A pandemia acentua e revela toda a força dos dispositivos de controle biopolítico, de extração e governo de vidas privatizadas e confinadas, destruindo o que nos resta de comunidade composta de diferenças e alianças inesperadas. O Laboratório Zona de Contágio faz uma aposta na urgência de experimentarmos a fabricação coletiva de outras formas de vida, a coexistência como “método” ontoepistemológico, pois não se trata de produzir “mais” evidências ou responder um problema, mas sim, inventar outros modos de conhecer sem o privilégio epistemológico colonizador de uma perspectiva que se pretenda universal e exterior às relações que a tornam possível. Significa pensar o laboratório como essa infraestrutura de produção dialógica, um lugar de encontros onde a produção de novas evidências depende da fundação de mundos compartilhados, a possibilidade da vida colaborativa em tempos precários, como vem dizendo Tsing (2015) ou a possibilidade investigativa de pensar o fim do mundo, como fala o pensador quilombola Antônio Bispo:
A nossa avaliação é que, neste exato momento, estamos vivenciando uma das maiores possibilidades de um fim desse mundo eurocristão, monoteísta, colonialista e sintético. Esse mundo está chegando ao fim. Não é à toa que estamos vivendo esse desespero, essa grande confusão. Mas, por incrível que pareça, estamos vivendo também uma nova confluência (Bispo dos Santos, 2018). (p. 21)
-
Moraes, Alana, e Henrique Parra. 2021. “Zona de Contágio: uma ciência da coexistência para o tempo das catástrofes”. ClimaCom. 2021. https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/zona-de-contagio/.
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