Métodos de pesquisa em ciências sociais (Becker)
Fichamento do livro "Métodos de pesquisa em ciências sociais"1 de Howard Becker.
“Sobre metodologia”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 17–46. Hucitec Editora.
Da substituição do pesquisador humano pela máquina no contexto de métodos quantitativos de pesquisa
Esta substituição {do pesquisador pela máquina} é certamente recomendável, pois não se pode ter uma ciência quando se permite que proposições sejam feitas sem outra garantia que não a de que "parece ser assim para mim". Tais afinnações estão notoriamente sujeitas a todo tipo de influências estranhas, sobretudo à racionalização do desejo. E as proposições geradas por procedimentos mais científicos podem, ainda assim, estar sujeitas a estas influências em qualquer ponto onde o que deve ser feito não for especificado. Portanto, um procedimento de amostragem plenamente especificado, à semelhança de uma máquina, é melhor do que a amostragem por cotas, que deixa à escolha do entrevistador quais homens brancos de meia {20} idade ele entrevistará, e portanto à mercê de quaisquer biases {vieses} não aleatórios que possam afetar o que o entrevistador faz, com o perigo de que estes biases tenham uma correlação com atitudes em estudo. Se um entrevistador, temendo a rejeição, escolhe pessoas "legais", e se este "ser legal" estiver correlacionado a atitudes políticas liberais, por exemplo, o procedimento de amostragem não especificado pode produzir resultados distorcidos, o que não ocorreria quando se utiliza a amostragem probabilística. (p. 19-20)
Exemplo de proposta de sistematização na etnografia
3: Howard S. Becker e Blanche Geer, "Participant Observation: The Analysis of Qualitative Field Data", in R. N. Adams c J. J. Preiss, Human Organization Research: Fielcl Relaticms anel Techniques (Homewood, Ill.: Dorsey Press, 1960), 267-89. (p. 24)
Problema das fraudes em entrevistas
As fraudes cometidas por entrevistadores sempre foram um problema sério para diretores de organizações de pesquisa que produzem "surveys". A análise lógica que se segue a um "survey" simplesmente pressupõe como verdadeiro que as entrevistas especificadas no desenho amostrai serão realizadas, e que seus resultados serão enviados de volta à organização. Sabe-se, todavia, que um certo número de entrevistadores falsificará suas entrevistas, preenchendo horários e guias de entrevista com respostas imaginárias para entrevistas que nunca foram realizadas. Como práticos homens de negócio, os responsáveis por "surveys" criaram regras de bom senso para definir o problema e métodos práticos de lidar com ele. Por exemplo, uma certa proporção da amostra pode ser reentrevistada, ou, pelo menos, pode-se verificar com cada um dos respondentes se uma entrevista de fato foi realizada. Periódicos e organizações neste campo ocasionalmente publicam trabalhos ou realizam simpósios sobre como lidar com o problema, e as respostas dadas são práticas e não teóricas. Eles não obtêm justificação a partir de nenhuma análise lógica do problema. (p. 28)
Hierarquia de credibilidade em organizações hierárquicas
As queixas das pessoas que administram organizações, devidamente compreendidas, revelam a sociologia essencial do bias e, particularmente, deixam claro que o bias jamais será eliminado com o aumento do rigor metodológico, pois a queixa essencial não tem nada a ver com o rigor com o qual nós reunimos nossos fatos, mas sim com o ponto de vista que parecemos estar assumindo. Simplificando o enunciado acima, uma característica da estrutura de qualquer organização estratificada é que os representantes comuns da sociedade rotineiramente atribuem maior credibilidade à história contada por aqueles que a administram do que às histórias daqueles que estão nos níveis inferiores na hierarquia. Esta hierarquia de credibilidade parece-me ser um traço característico de todas as organizações hierárquicas. O sociólogo provoca a acusação de tendencioso sempre que diz alguma coisa que nega a legitimidade da hierarquia de credibilidade. Ele só pode evitar este tipo de acusação assumindo o ponto de vista dos membros de nível superior de uma organização da fonna como é apresentado, o que representa claramente uma forma de bias tão séria quanto a outra, além de ser vista como tal pelos subordinados. Ele também não pode evitar esta acusação sendo neutro e apresentando ambos os lados da história, pois, quando ele toma a iniciativa de contar a história do ponto de vista dos subordinados, viola a hierarquia de credibilidade e portanto será necessariamente acusado de bias. (p. 32)
“Problemas de inferência e prova na observação participante”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 47–64. Hucitec Editora.
Observação participante como método de descobrir e testar hipóteses
Normalmente, os sociólogos usam este método {a observação participante} quando estão especialmente interessados em compreender uma organização específica ou um problema substantivo, em vez de demonstrar relações entre variáveis abstratamente definidas. Eles se esforçam para dar um sentido teórico a suas pesquisas, mas presumem que a priori não conhecem o bastante sobre a organização para identificar problemas e hipóteses relevantes, e que precisam descobri-los no decorrer de sua pesquisa. Embora a observação participante possa ser utilizada para testar hipóteses a priori e, por conseguinte, não precise ser tão pouco estruturada quanto no exemplo que dei acima, não é isto que em geral ocorre. Minha discussão se refere ao tipo de estudo de observação participante que busca tanto descobrir hipóteses quanto testá-las. (p. 48)
Definição da pesquisa, controle de fenômenos e criação de modelo
Os três estágios da análise de campo são: a seleção e definição de problemas, conceitos e índices; o controle sobre a freqüência e a distribuição de fenômenos; e a incorporação de descobertas individuais num modelo da organização em estudo.3 O quarto estágio de análise final envolve problemas de apresentação de evidências e provas. (p. 50)
Controle de frequência
Suponha, por exemplo, que o observador conclua que os estudantes de Medicina compartilhem a perspectiva de que sua escola deveria lhes fornecer a experiência clínica e as práticas técnicas necessárias para um clínico geral. Sua confiança na conclusão variaria segundo a natureza da evidência, a qual poderia assumir cada uma das seguintes formas: (1) Todos os membros do grupo disseram, em resposta a uma pergunta direta, que esta era a maneira como viam a questão. (2) Todos os membros do grupo expressaram espontaneamente para um observador que era assim que encaravam a questão. (3) Uma dada parcela dos membros do grupo ou respondeu uma pergunta direta ou forneceu espontaneamente a informação de que compartilhava esta perspectiva, mas não foi perguntado a nenhum dos outros ou nenhum deles exprimiu espontaneamente alguma informação sobre este assunto. (4) Todos os membros do grupo foram interrogados ou forneceram informações espontaneamente, mas uma dada parcela disse que encarava a questão a partir da perspectiva diferenciada de uma possível especialização. (5) Perguntas não foram feitas a ninguém e nem informações espontâneas foram fornecidas, porém observou-se que todos os membros adotaram comportamento ou {57} fizeram outras declarações a partir dos quais o analista inferiu que a perspectiva do clínico geral era utilizada por eles como uma premissa básica, embora não declarada. Por exemplo, todos os estudantes podem ter sido observados queixando-se de que o Hospital Universitário recebeu um número demasiado elevado de doenças raras, que os generalistas raramente encontram. (6) Observou-se que uma dada parcela do grupo utilizava a perspectiva do clínico geral corno uma premissa básica em suas atividades, mas não se observou o restante do grupo envolvendo-se em tais atividades. (7) Observou-se que dada parcela do grupo se envolvia em atividades que implicavam a perspectiva do generalista, enquanto o restante estava envolvido em atividades que implicavam a perspectiva de uma possível especialização. (p. 56-7)
Construção de modelos
- (1) Afirmações complexas sobre as condições necessárias e suficientes para a existência de algum fenômeno. O observador pode concluir, por exemplo, que os estudantes de Medicina estabelecem um consenso acerca dos limites do montante de trabalho que deverão realizar porque (a) enfrentam um grande volume de trabalho, (b) se envolvem em atividades que criam canais de comunicação entre todos os membros da classe e (c) enfrentam perigos imediatos sob a forma de exames definidos pela Escola.
- (2) Afirmações de que algum fenômeno é um elemento "importante" ou "básico" na organização. Tais conclusões, quando elaboradas, apontam em geral para o fato de que este fenômeno exerce uma influência persistente e contínua sobre diversos acontecimentos. O observador pode concluir que a ambição de tornarse um generalista é "importante" na Escola de Medicina em estudo, querendo com isto dizer que muitos julgamentos e escolhas específicas são feitos pelos estudantes em função desta ambição, e que muitos aspectos da organização escolar são ajustados no sentido de levá-la em consideração.
- (3) Afirmações que identificam uma situação como um exemplo de algum processo ou fenômeno descrito mais abstratamente na teoria sociológica. Teorias postulam relações entre muitos fenômenos abstratamente definidos, e conclusões desse tipo implicam que relações postuladas de forma generalizada se sustentem neste exemplo específico. Por exemplo, o observador pode afirmar que expressar um desejo de tornar-se generalista é uma norma cultural dos estudantes de Medicina; ao fazê-lo, assevera, com efeito, que a teoria sociológica sobre as funções das normas e sobre os processos através dos quais são mantidas, tida como verdadeira em geral, é verdadeira neste caso específico. (p. 59)
Sobre a validade das evidências coletadas de maneira irrefletida
A melhor evidência pode ser exatamente aquela que foi coletada da maneira mais impensada, quando o observador simplesmente registrou o item, embora ele não fizesse parte do sistema de conceitos e hipóteses que estivesse trabalhando no momento, pois possivelmente contém menos bias produzido pelo desejo de dar substância ou repudiar uma idéia em particular. Por outro lado, uma hipótese bem formulada possibilita uma busca deliberada por exemplos negativos, particularmente quando outros conhecimentos sugerem áreas prováveis nas quais procurar tais evidências. Este tipo de busca requer uma conceitualização avançada do problema, e evidências coletadas deste modo podem ter um peso maior para certos tipos de conclusões. Ambos os procedimentos são relevantes em diferentes estágios da pesquisa. (p. 62)
História natural como prova da observação participante
Ao trabalhar no material sobre o estudo da Escola de Medicina, uma possível solução para este problema {de como apresentar provas}, com a qual estamos fazendo uma experiência, é uma descrição da história natural de nossas conclusões, apresentando as evidências tais como chegaram à atenção do observador durante os sucessivos estágios de sua conceitualização do problema. O termo "história natural" não implica a apresentação de cada um dos dados, mas somente das formas características que os dados assumiram em cada estágio da pesquisa. Isso envolve, levando em consideração as leis discutidas acima, a forma que tomaram os dados e qualquer exceção significativa na apresentação das várias afirmações de descobertas, assim como das inferências e conclusões esboçadas a partir delas. Desse modo, a evidência é avaliada à medida que a análise substantiva é apresentada. Se este método for empregado, o leitor será capaz de acompanhar os detalhes da análise e ver como e em que bases se chegou a qualquer das conclusões. Isto daria ao leitor, como dão os métodos estatísticos de apresentação atuais, a oportunidade de fazer seu próprio julgamento quanto à adequação da prova e ao grau de confiança a ser atribuído à conclusão. (p. 64)
“Evidências de trabalho de campo”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 65–99. Hucitec Editora.
O valor da etnografia na antropologia, psicologia e sociologia
Os antropólogos podem achar a questão {sobre a credibilidade ou validade de evidência do trabalho etnográfico} tola, porque fazem uma grande parte de seu trabalho desta maneira e porque tantos de seus clássicos dependem deste tipo de evidência; mas uma minoria dentre eles, possivelmente uma minoria em crescimento, po{65}deria ver algum sentido na questão, sentindo que as técnicas de trabalho de campo antropológico são excessivamente desestruturadas para produzir conhecimento confiável. Os psicólogos, por outro lado, consideram a questão significativa e, de fato, a estão sempre levantando em relação à pesquisa sociológica. "Soa muito interessante, até mesmo plausível", eles dizem, mas, "é verdade? Como podemos ter certeza?" Os sociólogos tremem. Todos os seus clássicos reconhecidos - Street Corner Society, The Polish Peasant, The Urban Villagers - se baseiam em tais métodos. Porém, nós nos prostituímos aos deuses do rigor e da precisão, e os procedimentos aparentemente indisciplinados do trabalho de campo não chegam propriamente a se adequar m exigências desta religião. (p. 65-6)
Sobre a possibilidade de o trabalho etnográfico afetar o campo que se pesquisa
Há boas razões para acreditar que o contrário {em relação ao observador participante afetar o curso normal da sociedade estudada} é verdade. A observação de campo tem menos probabilidade, em relação aos métodos mais controlados de laboratório e entrevistas de "surveys", de permitir que o pesquisador influencie com seus biases os resultados que obtém nas direções sugeridas por suas próprias expectativas, crenças e desejos. Quase todo pesquisador de campo acredita nesta proposição, geralmente porque ele já teve muitas vezes que sacrificar idéias e hipóteses que lhe eram caras diante dos fatos recalcitrantes nas suas notas de campo. Antes de discutir as características da coleta de dados no campo que produzem estes fatos recalcitrantes, quero introduzir a experiência pessoal que me convenceu a este respeito. (p. 70)
Quer a pessoa que está sendo observada saiba o que o observador espera dela ou não, ela não se atreve a responder a esta expectativa. As coisas em que está envolvida no momento da observação são, via de regra, muito mais importantes para ela do que o observador. Se eu observar um estudante universitário respondendo a um professor numa sala de aula, observo uma pessoa para quem as minhas reações são muito menos importantes do que as do professor - que é quem pode lhe dar uma nota baixa - e mesmo que as dos demais estudantes, cuja opinião sobre ela tem conseqüências por muito tempo depois de ele ter-me visto pela última vez. Ela pode não se importar com o fato de eu considerá-la estúpida, ingênua ou ardilosa; mas é melhor que eu pense assim do que aqueles cujas opiniões são muito mais relevantes do que a minha. Da mesma maneira, quando Skolnick observou {76} policiais, eles estavam ocupados fazendo coisas para ganhar promoções (ou pelo menos evitar as repreensões) de seus superiores, coisas para manter sua posição no departamento e uis-à-uis os infratores da lei, tais como prostitutas, com quem eles tinham contato constante. Talvez gostassem de fazer com que Skolnick tivesse uma boa opinião sobre eles, mas queriam muito mais fazer com que seus superiores tivessem uma boa opinião deles, fazer com que as meretrizes os respeitassem o bastante para fazerem o que lhes era ordenado e assim por diante. (p. 75-6)
Em suma, a presença na situação observacional das mesmas restrições sociais que o sociólogo normalmente estuda torna difícil para as pessoas que ele observa fabricarem seu comportamento segundo o que acham que o observador poderia querer ou esperar. Por mais que queiram, as conseqüências reais de se desviar daquilo que, em outro contexto, poderiam se desviar são tão grandes - perda de uma promoção ou de reputação aos olhos de membros estáveis da sua comunidade - que eles não podem fazê-lo. (p. 76)
Convencer de que o estudo não é importante tem um efeito de aumento de eficácia
Quando um pesquisador de campo é bem-sucedido em convencer as pessoas que estuda de que o que ele vê não terá maiores conseqüências, isso paradoxalmente tem o efeito contrário ao que sucesso semelhante tem numa situação de pesquisa, mais controlada. Nesta, quanto mais as pessoas acreditam que não faz diferença o que o observador os vê fazer ou dizer, mais abertos ficam a serem influenciados por ele; no trabalho de campo, quanto mais as pessoas acreditam que o pesquisador é pouco importante, mais livres se sentem para reagir às outras restrições que os cercam e pressionam. (p. 77)
Sobre a riqueza de dados heterogêneos obtidos durante um longo período de observação
Em suma, o número muito grande de observações e tipos de dados que um observador pode coletar, como também a possibilidade resultante de experimentar com uma variedade de procedimentos para coletá-los, significa que suas conclusões finais podem ser testadas mais freqüentemente e em mais sentidos do que é comum em outras formas de pesquisa. Conseqüentemente, agimos corretamente quando depositamos grande confiabilidade nas evidências de trabalho de campo. (p. 84)
Sobre a possibilidade (baixa) de um grupo sustentar uma mentira
O mais importante é que um traço característico da organização social se combina a um traço comum de civilidade cotidiana para tornar improvável tanto que as pessoas que o pesquisador estuda sejam bem-sucedidas, em dissimular o comportamento quanto que o pesquisador tenha condições de ignorar evidências contraditórias. A característica organizacional é a interligação da vida organizacional. O princípio da civilidade cotidiana é a falta de disposição das pessoas para mentir ou dissimular quando há perigo de serem descobertas. Devido ao fato de que os vários aspectos da atividade em uma organização social são interligados, torna-se difícil para as pessoas contar uma mentira coerente e ainda mais dificil agir de acordo com ela. Uma vez que não estão dispostos a serem apanhados numa mentira· ou em incoerência, elas acabam por revelar suas crenças verdadeiras, como o fariam se o observador não estivesse presente. (p. 87)
Sobre a possibilidade (baixa) do pesquisador sustentar uma mentira
Em grande parte pelas mesmas razões {da interligação de atividades}, observações numerosas feitas durante um período de tempo substancial ajudam o obser{90}vador a se proteger contra seus biases conscientes ou inconscientes, contra "ver apenas o que ele quer ver". Pois é igualmente difícil mentir para si mesmo. As evidências contraditórias aparecem, e não aparecem sob formas sutis, mas de maneiras bastante gritantes. Quanto mais observações se faz e mais tipos diferentes de observação se faz, mais difícil se torna ignorar ou criar explicações que anulem evidências que venham de encontro à expectativa ou tendência de alguém. O observador tem assim, para criar um quadro coerente do que vê, o mesmo problema que a pessoa estudada tem quando está diante do observador. (p. 89-90)
Procedimentos flexíveis
Quero comentar três das possibilidades criadas por esta flexibilidade de procedimentos na coleta de evidências, para testar conclusões de pesquisa: (1) utilizar medidas não-convencionais sugeridas pela experiência na situação; (2) fazer uso da própria experiência como evidência; e (3) usar estilos agressivos e ardilosos para provocar as pessoas a ponto de fazer com que elas digam coisas que de outro modo guardariam para si mesmas. A existência de tais procedimentos nos dá novas razões para confiar nas conclusões baseadas em trabalho de campo. (p. 92)
Medidas não-convencionais sugeridas pela experiência na situação
(1) Os sociólogos tratam itens de dados concretos como se fossem instâncias de classes teóricas gerais, como uma corporificação de alguma variável abstratamente concebida e mais convenientemente medida daquela maneira. Quando usamos itens padro{92}nizados de dados para medir estas variáveis abstratas, pressupomos que o dado concreto específico que medimos servirá como uma corporificação adequada que perpassa uma variedade de momentos, lugares e pessoas. Se perguntamos pela ocupação do pai, na intenção de que o dado indique alguma coisa a respeito da classe social dos pais, pressupomos que isso tem, aproximadamente, a mesma relação com classe social tanto em um determinado momento e lugar quanto em outro, e que as pessoas a quem perguntamos todas entenderão aproximadamente a mesma coisa com esta pergunta. Naturalmente que estas pressuposições às vezes falham, mas ainda assim temos fé nelas como forma de obtermos conveniência e comparabilidade. Nossa fé explica o uso persistente da variedade de escalas e itens que formam os instrumentos-padrão de pesquisa. (p. 92)
Podemos, contudo, usar outro enfoque para o problema de encontrar corporificações de nossas variáveis teoricamente definidas. Podemos procurar as variantes locais específicas, a maneira pela qual aquela variável encontra expressão sob todas as características locais e peculiares da situação imediata. Este procedimento torna a comparabilidade de certa forma mais complicada, mas maximiza o encaixe do conceito com o dado. Roth, por exemplo, queria estudar como as pessoas aquiescem às regras institucionais. Ao invés de usar alguma medida geral de aquiescência, ou alguma medida específica para os ambientes médicos em que estava particularmente interessado, ele notou que, no hospital de tuberculose que estava observando, as pessoas às vezes obedeciam e às vezes violavam regras rigorosamente formuladas para o uso de roupas e máscaras protetoras. Ele contou as ocasiões nas quais várias categorias de funcionários do hospital usaram ou não usaram uniformes protetores, e, desse modo, encontrou evidências de que a aquiescência é inversamente proporcional à posição: os médicos se conformavam menos, os ajudantes mais. (p. 92)
A literatura de trabalho de campo contém muitos exemplos de tais medidas localmente restritas de variáveis abstratas. Assim, {93} Blau mediu padrões de influência e deferência através da observação da freqüência pela qual os funcionários pediam conselhos uns aos outros. Whyte usou padrões de local de assento como uma medida da estrutura de panelinhas. Meus colegas e eu usamos uma variedade de itens para demonstrar a existência, entre estudantes universitários, de uma perspectiva de "média de pontos das notas" em relação a seu trabalho acadêmico: os tipos de perguntas que os estudantes faziam durante as aulas, seus métodos de estudo (tanto individuais quanto coletivos), padrões de prestígio dos grupos residenciais e assim por diante. (p. 92-3)
Fazer uso da própria experiência como evidência
(2) O pesquisador de campo pode às vezes se aproveitar de sua presença na situação para produzir evidências baseadas na sua própria experiência. De modo muito óbvio, podemos transformar em dado a maneira como as pessoas que estudamos reagem a nós como observadores. Gussow relata ter usado a forma variável como foi recebido em diversas escolas como uma maneira de compreender sua estrutura. Os professores em uma escola tradicional, por exemplo, tinham menos consciência de que criança ele estava observando do que os professores de uma escola moderna (a diferença refletia a indiferença relativa à individualidade das crianças), e mais interessados em usar o pesquisador como uma {94} ajuda de autoridade (a diferença refletia de sua maior preocupação com a hierarquia e o controle). (p. 93-4)
Podemos também, se de fato nos engajarmos nas mesmas atividades das pessoas que estudamos, fazer uso de suas reações aos eventos, tarefas e problemas daquele estilo de vida. Numa tabela notável, Roy usou seus próprios registros de produção numa oficina de máquinas para demonstrar quanto os trabalhadores restringiam a produção e, neste processo, o grau em que reduziam seus próprios ganhos. (p. 94)
Usar estilos agressivos e ardilosos para provocar as pessoas a ponto de fazer com que elas digam coisas que de outro modo guardariam para si mesmas
(3) Os entrevistadores freqüentemente se inibem, adotando um estilo de conversação brando e delicado, concebido para criar uma relação com seus respondentes e para evitar "conduzi-los". Um procedimento mais flexível muitas vezes gera dados muito mais completos, na medida em que o próprio entrevistador toma posições sobre algumas questões e usa táticas de conversação mais agressivas. Esta flexibilidade pode também caracterizar a entrevista única, mas provavelmente é verdade que o pesquisador se sente mais à vontade quando a utiliza com pessoas com quem já vem trabalhando há algum tempo e pode fazer uso do fato de eles saberem que ele sabe muito sobre o que está se passando. (Por outro lado, os pesquisadores de campo às vezes se preocupam mais com a possibilidade de azedar uma relação que terá que perdurar do que os entrevistadores que não voltarão a ver seu informante.) (p. 94)
Estas táticas não serão eficazes em todas as situações, nem se pretende que alguém as utilize indiscriminadamente. Quando, por exemplo, sua pesquisa o coloca em contato constante com aqueles a quem está estudando, como num estudo de comunidade de longo prazo, pode ser mais sábio evitar a possibilidade de antagonizar os informantes que é inerente a este estratagema, sobretudo porque as informações que poderiam ser trazidas à tona assim também poderiam, sem dúvida, ser coletadas com mais tato no curso de uma série expandida de entrevistas e observações. Além disso, nem todas as relações entrevistador/informante abrangem tal compromisso de corte· sia pronto para uso como o aqui descrito, e muitos informantes sem dúvida simplesmente ignorariam a pressão situacional no sentido de serem plausíveis e consistentes. Acredito, contudo, que pressões semelhantes, às quais informantes de diversos tipos são sensíveis, podem ser intensificadas se o entrevistador estiver disposto a experimentar. Finalmente, a situação pode ser complicada, e muitas vezes o é, pelo fato de o informante estar numa classe social mais alta do que a do entrevistador. A etiqueta não declarada de tal relacionamento deixa o informante à vontade para ser rude, através de evasivas ou implausibilidade, à vontade para ignorar as exigências de um interrogador que está extrapolando os limites de seu papel de deferência. (p. 98)
“A história de vida e o mosaico científico”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 101-116. Hucitec Editora.
[Apresenta o método história de vida]
“Observação social e estudos de casos sociais”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 117-133. Hucitec Editora.
O trabalho de observação participante
O observador se coloca na vida da comunidade de modo a poder ver, ao longo de um certo período de tempo, o que as pessoas normalmente fazem enquanto realizam seu conjunto diário de atividades. Ele registra suas observações o mais breve possível depois de fazê-las. Ele repara nos tipos de pessoas que interagem umas com as outras, o conteúdo e as conseqüências da interação, e como ela é discutida e avaliada pelos participantes e outros depois do evento. Ele tenta registrar este material tão completamente quanto possível por meio de relatos detalhados de ações, mapas de localização de pessoas enquanto atuam e, é claro, transcrições literais das conversações. (p. 120)
O problema do viés
O bias pode ser evitado reproduzindo cuidadosamente um relato completo de todos os eventos observados; buscando cobrir todas as variedades de eventos através de algum tipo de mecanismo de amostragem primitiva (fazer observações em momentos diferentes do dia ou do ano, procurar deliberadamente membros de grupos diferentes da comunidade ou da organização, e assim por diante); e formulando hipóteses tentativas à medida que o trabalho de campo prossegue e depois procurando deliberadamente casos negativos. (p. 121)
Conflito como ponto de interesse
O observador está particularmente alerta para incidentes de qualquer tipo que sejam definidos como conflito ou "problema" pela comunidade ou organização sendo estudada. Tais incidentes permitem que ele, com o máximo de rapidez, descubra as expectativas que guiam a interação; quando as expectativas são violadas, advém o problema. Vendo que tipos de ação produzem conflito, o observador pode inferir a existência de expectativas implícitas, as quais se tornam então parte de seu modelo analítico do grupo em estudo. (p. 121)
Especificidade da linguagem como ponto de interesse
Ele está alerta também para as nuanças de linguagem, tais como sentidos especiais dados a palavras comuns, pois isto sinaliza a existência de situações, eventos e pessoas que os membros do grupo consideram suficientemente distintos para merecerem ser lingüisticamente caracterizados de modo específico, e desse modo dão uma indicação quanto aos problemas e reações característicos dv grupo. Ao investigar o sentido e uso de um tenno incomum, ao examinar instâncias de seu uso e ver quando ele se aplica e quando não se aplica, o observador enriquece seu modelo analítico. (p. 122)
Entrevista individual x coletiva
O observador não se limita à observação apenas. Ele pode também entrevistar membros do grupo, seja isoladamente ou em grupos. No primeiro caso, ele pode examinar as origens sociais e as experiências anteriores de um participante, assim como suas opiniões particulares sobre questões correntes. No último, ele está com efeito "penetrando" nos tipos habituais de comunicações correntes num grupo, vendo o que os membros dirão quando na companhia de outros membros. A diferença entre opinião particular e comunicação pública pode fornecer indicações importantes das nonnas do grupo. (p. 122)
Documentos e estatística como dado
O observador também verificará que é útil coletar documentos e estatísticas (minutas de reuniões, relatórios anuais, recortes de jornal) gerados pela comunidade ou organização. Eles podem propiciar um histórico útil, documentação necessária das condições de ação para um grupo (como num conjunto de regras codificadas) ou um registro conveniente de eventos e análises (como, por exemplo quando um jornal de universidade registra os casamentos de estudantes, especificando sua posição na estrutura social do campus). Em todos os casos, o observador tem que examinar cuidadosamente como os documentos com que ele trabalha foram criados; por quem, seguindo que procedimentos, e para que propósi{123}tos? Pois é claro que os documentos não podem ser aceitos pelo seu valor de face, mas têm que ser interpretados à luz de tais considerações. (p. 122-3)
Criação de estatísticas
O observador pode também criar suas próprias estatísticas para a solução de problemas específicos. Portanto, pode-se observar o número de vezes que as pessoas de um escritório pedem conselhos uns aos outros, ou pode-se fazer registros precisos da própria produção em etapas numa oficina de máquinas, a fim de usá-los como uma indicação do que é possível para o membro médio do grupo. (p. 123)
O método quase-estatístico
Numa fase posterior, o observador, tendo decidido, pelo menos provisoriamente, o que ele estudará na situação em questão, e que aparato teórico usará, está interessado em saber se seus resultados iniciais são válidos para toda a comunidade ou organização. Seus dados normalmente não serão, a não ser que tenham sido coletados especificamente para este propósito, suficientemente sistemáticos para permitirem a manipulação estatística. Porém, ele pode gerar o que tem sido chamado de "quase-estatística", isto é, números que resultam da amostragem e enumeração imprecisas contidas em seus dados. Estes dados são geralmente bastante adequados para os pontos que quer demonstrar. (p. 125)
22: Ver Allen H. Barton e Paul F. Lazarsfeld, "Some Functions of Qualitative Analysis in Social Research", in S. M. Lipset e Neil J. Smelser, orgs., Sociology: The Progress of a Decade (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1961), 95-122. (p. 125)
Particularmente, a quase-estatística pode permitir que o investigador abandone certas hipóteses nulas problemáticas. Uma {126} simples contagem de freqüência do número de vezes que um dado fenômeno aparece pode tornar insustentável a hipótese nula de que o fenômeno é infreqüente. Uma comparação entre o número de tais ocorrências e o número de casos negativos - instâncias nas quais algum fenômeno alternativo que não estava previsto por sua teoria aparece - pode tornar possível uma conclusão mais forte, sobretudo se a teoria foi suficientement-e desenvolvida no início do período observacional para permitir uma busca sistemática de casos negativos. Do mesmo modo, uma investigação da variedade de situações coberta pelos dados do investigador pode permitir que ele negue a hipótese de que sua conclusão se restringe apenas a urnas poucas situações, períodos de tempo ou tipos de pessoas da organização ou comunidade. (p. 125-6)
O problema técnico de criar quase-estatísticas reside em se certificar de que de fato se inspecionou todos os casos relevantes. Vários pesquisadores fabricaram esquemas para fazer isso. O traço comum destes esquemas é a redução do corpo de dados, através da elaboração de um abstract das notas de campo que foram acumuladas, subdividindo-as em unidades pequenas e classificando cada unidade sob todas as categorias analíticas para as quais poderia ser relevante. Quando o investigador deseja analisar todo o material sobre urna determinada questão, seleciona suas unidades (as quais podem ser reproduzidas em keysort cards {cartões perfurados} para maior conveniência), retira os itens que forem irrelevantes e estrutura uma conclusão que leva em consideração todas as evidências relevantes remanescentes. (p. 126)
23: Um esquema representativo é descrito em Howard S. Becker E Blanche Geer, "Participant Observation: The Analysis of Qualitative Field Data", in Richard N. Adams e J ack J. Preiss, orgs., Human Organization Reseorch: Field Relations and Tecnhniques (Homewcod, 111.: Dorsey Press, 1960), 267- 89. (p. 126)
Uma das maiores falhas da maioria dos estudos de caso observacionais tem sido sua incapacidade de tornar explícita a base quase-estatística de suas conclusões. Mesmo que o investigador use procedimentos de enumeração e amostragem errôneos, suas evidências podem, não obstante, ser suficientes para garantir as conclusões a que chega, se ele afirma explicitamente qual é a {127} evidência e demonstra que suas conclusões estão relacionadas a ela. Particulannente, as conclusões podem parecer extremamente plausíveis se forem sustentadas por diversos tipos de evidência ao mesmo tempo. Portanto, a conclusão de que os estudantes de Medicina utilizam de urna perspectiva baseada nos valores da experiência clínica e responsabilidade médica ganha maior plausibilidade quando se demonstra não apenas que o uso desta perspectiva é freqüente e aparece em uma ampla variedade de situações, mas também que as caracterizações dos pacientes feitas pelos estudantes dependem fortemente dos mesmos critérios. (p. 126-7)
Construção de modelos
Em conseqüência das fases iniciais da análise, o pesquisador adquire vários modelos limitados de partes da organização ou comunidade, proposições que descrevem um tipo de interação entre dois status em um tipo de situação. A fase final de um estudo de caso consiste no refinamento progressivo destes modelos de partes (realizada pela verificação contínua em relação a evidênciasjá disponíveis nas notas de campo ou recentemente coletadas no campo) e sua integração em um modelo da organização ou comunidade como um todo. O modelo fornece respostas para as questões teóricas do estudo e demonstra a contribuição de cada parte da estrutura analisada para a explicação do fenômeno em questão. (p. 127)
Os modelos da comunidade ou organização que resultam dos estudos de caso não devem ser confundidos com modelos matemáticos. Ao contrário, eles têm a mesma relação com o grupo estudado que a história natural de um processo (tal como o ciclo de relações raciais ou processo de se tornar um viciado em drogas) tem com qualquer conjunto específico de eventos que se diz car{128}porificá-lo. Numa análise da história natural do processo, nós eliminamos a característica histórica única de várias instâncias do mesmo fenômeno, deixando como nosso resultado apenas as etapas genéricas do processo- aquelas etapas que sempre ocorreriam se o mesmo resultado fosse encontrado. Do mesmo modo, em um estudo de caso da estrutura social, nós eliminamos o que é historicamente único e nos concentramos nas propriedades genéricas do grupo, visto como um exemplo de um tipo especifico de estrutura. As relações entre as características essenciais desse tipo de estrutura são expressas por generalizações verbais. Por exemplo, poder-se-ia estudar uma prisão ou escola buscando descobrir quais são os status e formas características de interação numa instituição na qual uma classe de participantes está presente involuntariamente. O resultado seria um modelo que poderia também ser aplicado a outras instituições com as mesmas características, tais como hospitais mentais. (p. 127-8)
Questões éticas sobre a publicação de resultados de observação participante
O relatório publicado de um estudo observacional pode ser usado, seja por membros do grupo ou por pessoas de fora, para envergonhar ou mesmo pôr em perigo a organização ou comunidade estudada, ou pelo menos seus líderes. Todo grupo preserva ficções sobre si mesmo - elas podem talvez ser necessárias para a continuação da existência do grupo -, que o apresentam como melhor em alguns sentidos do que a pesquisa sem preconceitos reveiará que é. Uma cidade pode achar que seu governo é mais amplamente representativo do que é; um hospital pode pensar que seu tratamento de pacientes tem mais êxito do que de fato tem. Um estudo de caso está fadado a revelar a discrepância entre a realidade operacional e a imagem em que seus membros acreditam, e que apresentam para o resto do mundo. Quando os resultados do estudo são publicados, a discrepância fica publicamente atestada de uma maneira que os membros do grupo não podem ignorar. Seus inimigos podem fazer uso da oportunidade para envergonhá-los ou atacá-los. Os membros podem pedir que os resultados sejam retidos ou podem tentar coagir o pesquisador a suprimi-los. (p. 132)
O investigador conseqüentemente enfrenta um dilema ético. A ciência exige relatos francos e irrestritos, e as questões das quais os membros do grupo se queixam podem ser aspectos importantes {133} do funcionamento do grupo, cuja supressão enfraqueceria o relato e o privaria de importância científica. Por outro lado, o investigador certamente tem alguma obrigação de não causar danos àqueles que permitiram que ele os estudasse; ele pode, de fato, ter prometido a eles que não seriam prejudicados. Ao fazer a promessa, ele pode ter querido dizer meramente que não exporia nenhum indivíduo ao ridículo ou à retaliação - a maioria dos sociólogos provavelmente encara isso como um princípio ético fixo -, mas agora descobre que dele se está exigindo respeitar os mesmos escrúpulos no caso de um grupo. (p. 132-3)
A solução para o dilema depende em parte dos próprios compromissos éticos do investigador. Todavia, ele pode evitar algumas das dificuldades inerentes ao relacionamento de pesquisa, fazendo um acordo claro com aqueles que estuda antes de começar o trabalho, tomando o cuidado de alertá-los quanto a toda gama de possibilidades desagradáveis a que podem estar se expondo. Ele pode tentar também educar aqueles com maior probabilidade de se ofenderem com o relatório final, explicando a eles, à medida que o estudo prossegue, quais provavelmente serão as suas conseqüências e ajudando-os a encontrar uma forma viável de conviver com o estudo publicado. (p. 133)
29: Ver Howard S. Becker, "Problems in the Publication of Field Studies" e "Whose Side Are We On?", em Sociological Work: Method and Subslance. (p. 133)
“Falando sobre a sociedade”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 135-152. Hucitec Editora.
[Reflexão sobre modos de representação (estatística, filmes, relatos, mapas, etc.)]
“Estudo de praticantes de crimes e delitos”. 1993. Em Metodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais, por Howard Becker, 153-178. Hucitec Editora.
O que perguntar; o que observar
Pergunte "Como?" -- não "Por quê?" Acho que é uma boa idéia em pesquisa sobre qualquer tópico evitar perguntar às pessoas por que elas fazem uma certa coisa quando na realidade se quer descobrir como aconteceu que elas a fizeram. Quando se pergunta por quê, na verdade se está pedindo, e é isso que se receberá dadas as convenções de nossa fala coum, uma justificativa, uma explicação, uma seleção a partir do vocabulário atualmente disponível de motivos. Muitas vezes queremos exatamente isso, mas {164} não deveríamos confundi-lo com um relato de como uma certa coisa veio a ocorrer (ver Mills, 1940). (p. 163-4)
{Gíria} Ele {o pesquisador} tem, é claro, que acabar por aprender a compreendê-la {a linguagem especial do grupo estudado}. Mas não precisa ser rápido demais para demonstrar isso, pois pode obter informações muito boas insistindo para que seus informantes e entrevistados expliquem a linguagem especial a ele. Ao fazê-lo, eles terão que dar as explicações e fornecer os exemplos que ele precisa para sua análise. Muitos pesquisadores acham difícil fingir ignorância ou admiti-la quando é real, querendo parecer bem informados, seja para fazer com que se sintam bem ou para assegurar ao entrevistado que ele pode falar com segurança, e que o que for dito será compreendido. A última razão pode ser verdadeira, mas a outra alternativa deve ser considerada. (Se o pesquisador está se fazendo passar por um membro da sociedade desviante, então tem, é claro, que exibir o grau necessário de habilidade lingüística.) (p. 165)
Situações típica. Certas situações e eventos típicos surgem na relação com a maioria das atividades desviantes; procure por eles e torne-os o foco do estudo. Vale a pena, antes de tudo, obter uma boa compreensão da atividade desviante em si, na medida em que ocorra publicamente o bastante para ser observada ou seja comentada livremente o bastante para permitir tal compreensão. Ao aprender sobre a atividade, passa-se a apreciar as contingências de ação que ela cria e os efeitos que estas têm sobre outros aspectos da ação coletiva na comunidade desviante. Uma vez que as pessoas leigas possuem muitas crenças sem fundamento sobre as atividades desviantes, das quais o sociólogo, por falta de melhor conhecimento, provavelmente compartilha, devese observá-las simplesmente para se livrar destas concepções; aprender, por exemplo, que os usuários de drogas não se dedicam tipicamente a orgias sexuais em seguida à ingestão de drogas. Além disso, a atividade em si pode ser de grande interesse teórico. O estudo de Humphreys sobre as atividades homossexuais em banheiros públicos, por exemplo, representa um caso extremo de atividade coordenada que ocorre com base numa barganha tácita um tópico que Thornas Schelling 1963) abordou em nível muito mais abstrato. (p. 167)
Estudar pessoas do contexto da atividade pesquisada
Podemos desejar também estudar as atividades de não-desvantes não-especialistas, de pessoas leigas comuns cujas próprias ações ocasionalmente figuram de modo importante nas vidas e experiências de desviantes. As pessoas leigas mais importantes de serem observadas são os membros da família, colegas de trabalho e membros do público em geral. Vários estudos (e.g., Sampson et al. 1965) investigaram as reações de membros da família ao fato da suspeita de doença mental num membro da família. O notável estudo de Edwio Lemert (1962) sobre a paranóia usou dados coletados com membros da família e colegas de trabalho {170} para demonstrar que as ilusões paranóicas de perseguição não eram ilusões, que estes outros, conforme seu próprio depoimento, realmente fizeram as coisas das quais o suposto paranóico se queixava. Richard Schwartz e Jerome Skolnick (1962) usaram uma engenhosa técnica experimental de campo para mostrar que os empregadores tinham menor probabilidade de oferecer emprego a candidatos que tivessem sido julgados ou condenados por um ate criminoso. (p. 169-70)
Uso de estatísticas oficiais
A confiança que os sociólogos depositavam nas estatísticas oficiais coletadas sobre o desvio provocou numerosas críticas severas e reveladoras. Acho que está claro, agora, embora alguns possam discordar, que a estatística policial, por exemplo, nos diz mais sobre a polícia do que sobre os criminosos, refletindo o grau em que os membros da corporação resolvem agir contra desviantes potenciais na comunidade. Porém, quando estudamos o desvio, podemos querer saber sobre o comportamento policial, de modo que a mesma estatística, assim interpretada, torna-se uma fonte valiosa, contando-nos a respeito dos níveis de atividade repressiva e sugerindo possíveis variações em tal atividade em relação aos subgrupos na comunidade desviante. (Ver Kitsuse e Cicourel, 1963; Cicourel, 1967; e Biderman e Reiss, 1967.) (p. 170)
Uso de outras fontes públicas
Várias fontes publicadas podem conter informações úteis, dependendo da forma de desvio. As revistas profissionais e científicas muitas vezes contêm artigos sobre formas de desvio e tópicos correlatos. Se o interesse for por uso de drogas ou conduta sexual imprópria, pllr exemplo, as revistas policiais, legais, psiquiátricas, farmacológicas e médicas têm boa probabilidade de serem úteis. A maioria das formas de desvio provoca diagnósticos de doença mental por parte de alguém, de modo que as revistas psiquiátricas são fontes particularmente frutíferas. Deve-se consultar rotineiramente o Quarteriy Jndex Medicus e os Psychological Abstracts para obter informações sobre esta literatura, e sua contrapartida apropriada no campo do Direito para obter notas de análise jurídica, discussões de política pública e coisas semelhantes. Ao {172} usar esta literatura, não se esqueça de que os fatos que ela relata não foram coletados por sociólogos com propósitos sociológicos. Muito ao contrário. Será necessário uma distinção cuidadosa entre os fatos relatados (tendo em mente que fatos importantes podem não ter sido relatados) e as teorias e opiniões incluídas. Os primeiros podem ser usados para testar suas próprias teorias. As últimas podem fornecer material rico para uma análise das ideologias sobre os aspectos da atividade desviante que são considerados como "problema". O trabalho de Alfred Lindesmith sobre viciados em opiáceas (1968) propicia um modelo clássico de ambos os usos da literatura existente. Ele usa casos relatados por médicos para testar sua própria teoria, reinterpreta resultados anteriores e usa as teorias dos médicos e agentes de repressão como dados para uma interpretação do problema social do vício. (p. 171-2)
Fontes do próprio grupo (desviante)
Finalmente, os grupos organizados de desviantes muitas vezes produzem uma litetatura autojustificante que pode também desempenhar algumas das funções de uma revista de um ramo profissional: documentos autobiográficos, relatórios sobre aspectos médicos, legais e científicos do desvio, editoriais denunciando discriminação e repressão, notícias de eventos importantes e aúncios de outras revistas e livros de interesse para os praticantes daquela atividade em particular (tais como revistas facilmente encontráveis publicadas por grupos nudistas e homossexuais). Este material serve, como sugeri no que diz respeito a outras fontes publicadas, tanto como um armazém de fatos para testar suas próprias teorias quanto como matéria-prima para uma análise de ideologia. Além disso, tais revistas podem ser usadas para pôr anúncios pedindo possíveis sujeitos de estudo; Taylor Buckner i1964), por exemplo, chegou a alguns travestis desta maneira. (p. 173)
Implicações éticas e conhecimento de culpa
A não ser que estudemos desviantes detidos, inevitavelmente conheceremos coisas que, dentro de uma construção estrita da lei, deveriam ser relatadas à polícia. Se realmente relatarmos o que sabemos, provavelmente não teremos condições de continuar {174} nossa pesquisa. Para sermos mais precisos, provavelmente teremos - explícita ou implicitamente - violado um acordo que fizemos com as pessoas que estudamos, um acordo de não usar as informações que obtivemos para causar danos às pessoas que as fornecem a nós. Se as pessoas estudadas souberem que estamos fazendo pesquisa, necessariamente terão pressupasto a existência deste acorda de nossa parte (ver Hughes, 1971: 524-9). Se os estivermos estudando secretamente, coletamos informações de uma maneira que qualquer outro cidadão poderia tê-lo feito, e não vejo nenhuma diretriz que se aplique ao sociólogo qua sociólogo. Acho repugnante e desonroso usar informações assim obtidas para destruir o caráter e as vidas das pessoas, embora não conheça nenhuma base científica para este julgamento. Mas isto não é necessário; a ética pessoal de cada um deve ser o bastante. Não pretendo com isso dizer que o uso de dados coletados secretamente de formas que não causem dano ao respondente é imoral. Ao contrária, tais dados podem ser usados para fins profundamente morais, como quando Humphreys (1970) usa sua análise de encontros homossexuais em banheiros públicos para mostrar como os participantes destes encontros eram vitimas da ação da policia. (p. 173-4)
E se os agentes de repressão requererem acesso aos nossos dados? Tanto quanto eu sei, isso ainda não aconteceu, mas provavelmente acontecerá em breve, na medida em que o desvio e a marginalidade política forem se tornando mais entrelaçados, tanto de fato quanto na cabeça dos agentes de repressão. Lewis Yablonsky ( 1963) sugeriu que nos entendêssemos antecipadamente com os funcionários envolvidos para obter imunidade, e que buscássemos conseguir amparo legislativo para nos livrarmos destas contingências. Porém, os entendimentos antecipados podem exigir que façamos acordos que preferiríamos não fazer (embora isso nãa seja necessariamente assim); parece-me improvável que a curto prazo se obtenha imunidade legislativa. Atualmente, acho que devemos estar dispostos, se houver oportunidade, a proteger os nossos informantes como têm feito alguns jornalistas, mesmo à custa de sanções legais. (p. 174)
Sobre a participação em atividades do grupo (desviante)
É indiscutível que não é preciso praticar uma atividade para compreendê-la. Se não for indiscutível, a proposição é pelo menos uma pressuposição necessária, se pretendermos ter uma ciência social da comunicação. Do contrário, nenhum sociólogo branco poderia escrever sobre negros ou um negro sobre brancos; homens não poderiam escrever sobre mulheres ou mulheres sobre homens. Apesar das ânsias românticas dos pesquisadores e das fortes convicções ideológicas de alguns desviantes, as exigências científicas não nos forçam a participar de atividades desviantes. (p. 175)
Porém, nossos propósitos científicos muitas vezes requerem que nós saibamos a respeito de atividades e observemos atividades que talvez desaprovemos pessoalmente. Acho que é igualmente indiscutível que não se pode estudar desviantes sem abandonar um moralismo simplório que exige que nós denunciemos abertamente qualquer atividade deste tipo em todas as ocasiões. De fato, o pesquisador deve cultivar uma atitude deliberadamente tolerante, tentando compreender o ponto de vista a partir do qual seus sujeitos empreendem as atividades que ele acha desagradáveis. Um moralismo que exclui a investigação empírica, decidindo a priori questões de fato, é cientificamente imoral. (p. 175)
Sobre as consequências sociais da publicação do estudo
Este não é o lugar para discorrer sobre esta argumentação {sobre a pesquisa sociológica poder potencializar ou desacreditar discursos sistêmicos ou anti-sistema} em detalhe (ver Becker, 1967a e 1970c: 105-22). Em resumo, o pesquisador tem que levar em consideração as conseqüências de tornar pública sua pesquisa. Seus resultados darão sustentação a visões populares que, não obstante, ele acha moralmente injustificadas, como poderia ocorrer se um sociólogo libertário descobrisse que o uso de drogas realmente causa danos cerebrais? Ou elas darão suporte a visões não-convencionais que ele considera moralmente injustificadas, como no caso de um sociólogo mais conformista que viesse a descobrir que o uso de drogas poderia ser bom para as pessoas? Pessoalmente, acho que o cientista tem que relatar seus resultados. Posso compreender também porque alguém poderia omitir um resultado obviamente passível de interpretação errônea em situações onde será usado de fonna distorcida para fins imorais, embora eu mesmo não me sentisse feliz de fazê-lo. (p. 176)
Sobre as possibilidades de participar mais ou menos no interior de um grupo
8: Ver, por exemplo, E. E. Evans-Pritchard (1940: 15): "os Azande não permitiam que cu vivesse como um deles; os Nuer não permitiam que eu vivesse de outra maneira. Entre os Azande senti-me forçado a viver fura da comurtidade; entre os Nuer fui forçado a ser um membro dela. Os Azande me tratavam como um superior, os Nuer corno alguém igual a eles. Ver também a discussão dos possíveis problemas legais associados aos estudos de distúrbios no campus em Science 165 (11 de julho de 1969), 157-61. (p. 176)
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Becker, Howard. 1993. Métodos De Pesquisa Em Ciencias Sociais. Hucitec Editora.
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