Maquinações
Experimentações teóricas, fichamentos e outros comentários descartáveis

Entrevista sobre a mecanologia

Rafael Gonçalves
20/03/2025
Gilbert Simondonobjetos técnicostecnologiareticulaçãofichamento

Fichamento da "Entrevista sobre a mecanologia"1 com Gilbert Simondon.

Contexto

O texto a seguir é uma transcrição da entrevista realizada com Gilbert Simondon em Agosto de 1968. A entrevista, articulada e conduzida pelos canadenses Jean Le Moyne (político, jornalista e entusiasta da Tecnologia) e Jacques Parent (então diretor filmográfico do ministério de Educação de Québec), integrou um projeto filmográfico realizado na França apoiado pelo Ministério de Educação de Québec (Ministère de l’Éducation du Québec) e pela Agência Nacional de Cinema do Canadá (Office national du film du Canada) sobre a Mecanologia. Compuseram o projeto dois filmes, ambos de 1968, sendo a entrevista de Gilbert Simondon o primeiro deles e o outro uma entrevista com o filósofo belga Henri Van Lier e com o entusiasta da Tecnologia Henri Jones. A presente tradução é baseada na transcrição da entrevista originalmente publicada no periódico Revue de Synthèse, tomo 130, vol. 6 do ano de 2009; esta tradução não conta com a apresentação de Vincent Bontems presente na publicação original (p. 4)

Objeto técnico como intermediário entre humano e mundo. Exemplo das ferramentas.

No entanto, uma relação real me parece existir, no sentido em que um objeto técnico existe, se constitui, primeiro como unidade, uma unidade sólida, um intermediário entre o mundo e o Homem, um intermediário possível entre dois outros objetos técnicos, e que a primeira fase de seu desenvolvimento é, sobretudo, uma fase de constituição de uma unidade, uma fase de constituição da solidez; tome uma ferramenta por exemplo; o que é o essencial de uma ferramenta? É aquilo de um liame, um intermediário entre o corpo do operador e as coisas sobre as quais ela age, mas também deve ela a princípio, para que seja uma boa ferramenta, ser resistente, que esteja bem constituída. Então, segundo diferentes culturas, encontramos por exemplo, um encabamento por junções de saliência, um encabamento por encaixe de uma conexão, um encabamento de ajustes por um anel ou por fios; essas são diferentes soluções apropriadas à madeira dura, à madeira maleável, à madeira mole dos países do Norte. Essas diferentes soluções são todas racionais, se levadas em conta duas constituições, especificamente o ferro de um lado, o manejo de outro, e se percebe por conseguinte que a função de uma ferramenta é a de estabelecer um vínculo constante e não falacioso entre o corpo do operador e o objeto sobre qual se age. Há uma individualidade, mas uma individualidade interior consistente do próprio objeto, da ferramenta. Não tomemos, por ora, outros objetos técnicos; tomo o mais elementar, aquele, por exemplo, que Leroi-Gourhan estudou em "Ambiente e Técnicas" e também em "O Homem e a Matéria". (p. 5)

Individuação e objeto técnico. Exemplo da roda.

Ele {o mesmo princípio de individuação da ferramenta} se apresenta {na máquina}, pois o ponto de partida quase imprescindível, é a resolução de um problema pelo surgimento de um intermediário, o qual é com frequência uma nova composição. A roda, por exemplo, é uma peça nova que, no carro de cargas, interpõe-se – como rolo ou acha inicialmente – quando então se trata de um eixo, quando é solidarizado ao chassi do carro ou da carroceria, sendo capaz de rolar sobre o solo. Esse intermediário deve, para ser viável, para ser fiável – como dizem nossos industriais – ser sólido em ambos sentidos vulgar e latino do termo, isto é de um só bloco. Como ele não pode ser, geralmente, fabricado em um só bloco, é preciso que ele seja montado; e a técnica da montagem é a técnica artesanal da solidez, que busca constituir um só bloco com vários outros. Por exemplo, o aro externo das rodas era sobretudo, inicialmente, um sistema de fricção; consiste em um grande círculo de ferro, que nossos fabricantes de rodas aqueciam na brasa, antes de encaixá-lo em torno das peças de madeira da jante, de modo que ele pressurize ao se resfriar e assim se contraia. E a boa roda é a roda que permite uma montagem sólida dos raios. A antiga discussão sobre as rodas de raio e o cruzamento ou o não cruzamento dos raios, a inclinação dos raios em relação ao plano vertical do veículo, são discussões que dizem respeito à primeira fase, à dita fase de individuação e de estabilidade da roda como objeto técnico. Posteriormente, surgem outras fases, mas o inicial, é que uma roda deve ser uma roda e que uma roda deve ser apenas uma e não várias rodas. (p. 6)

Coerência interna como condição de existência de um objeto técnico. Exemplos da lâmpada e do motor de Diesel.

Primeiramente, para que uma máquina exista, é preciso que de início ela seja viável, tal como um ser vivo é viável, isto é, que ela não seja autodestrutiva, que ela seja o assento – se assim se pode dizer – de mudanças do que é estável; pensando em uma lâmpada na qual o fogo propagasse, que não permitisse regulação da combustão em ser estável; esta lâmpada estaria condenada a não existir, especificamente porque ela {7} seria autodestrutiva. Em outras palavras, a unidade do funcionamento, a estabilidade do funcionamento, sua coerência interna são a condição de existência de um objeto técnico qualquer, bem como de uma máquina qualquer. Um motor térmico, o primeiro motor Diesel, não poderia existir porque não foi concebido de tal maneira que não pudesse explodir – a mistura dada na injeção do combustível no ar se fazia antes da compressão, o segundo motor de Diesel foi aquele no qual uma fina pulverização sob alta pressão de combustível ocorre ao fim da compressão e serve, concomitantemente, à ignição pois neste momento o ar está em temperatura elevada, o que permite a inflamação da gasolina. O primeiro era autodestrutivo, pois explodia; o segundo não. (p. 6-7)

Complexificação e circuitos de informação

Sim, de maneira simplificada, é isso. Posteriormente, vemos ainda que, para alcançarem uma complexidade mais elevada, os objetos técnicos precisam, usualmente, de circuitos de informação, que não são somente os circuitos implícitos de informação, os quais se poderia chamar de circuitos de informação associados. A lâmpada que quanto mais se aquece mais demanda ar e assim se resfria, estabiliza; mas se estabiliza por meio da corrente de ar, que não é informação no próprio do termo. No entanto, seu funcionamento implica algo de informacional, a título implícito, interno. Ao contrário, em máquinas muito mais complexas, é necessário evocar a informação, a qual é concebida e tratada como informação em estado separado. É o que vemos em todas as máquinas que utilizam a eletrônica por servo-reguladores e por servocomandos, ou mesmo, por servocomandos hidráulicos. Mas já a informação implícita, permitindo a homeostase e a estabilidade do objeto, existe em uma simples e antiga lâmpada a óleo. (p. 7)

Mecanologia como gosto da relação entre ciência perfeita e natureza pura. Exemplo da antecipação científica em Jules Verne.

Sim {reconheço a existência de um pensamento mecanológico que teria começado com Releaux}... Não conheço bem os autores sobre os quais você gentilmente me falou... mas há muito tempo que uma mecanologia existe, pelo menos como gosto, como inclinação e como poesia da relação entre a indústria mais perfeita, ou a ciência melhor equipada, e uma natureza de estado mais natural, isto é, acerca do mais impulsivo e liberto dos defeitos e das impurezas humanas, sabe-se disso. No nosso exemplo doméstico, Jules Verne bem representa essa inclinação. Eu me concentrei mais em torno do gosto mecanológico de antecipação científica pelos romances de Jules Verne, que são do séc. XIX, do que nos filósofos, nos técnicos, ou nos especialistas da mecanologia propriamente dita. (p. 8)

Mecanologia cultural, sociedade má técnica, histerese cultural

{Em relação a diferentes maneiras internas à corrente mecanológica} Eu tenderia sobretudo para algo cultural. O que, atualmente, me preocupa mais, não é um estudo frio e objetivo, o qual entretanto creio necessário; eu não quero criar um museu, ainda que eu reconheça sua necessidade e {9} utilidade; eu gostaria sobretudo de despertar culturalmente meus contemporâneos no que toca a civilização técnica ou, antes, as diferentes camadas históricas e as diferentes etapas de uma civilização técnica, pois ouço grosserias que me desanimam. Sobretudo, o objeto técnico é responsabilizado por tudo, por uma civilização super técnica, onde "não há alma"; ou ainda a civilização de consumo é responsabilizada pelos desastres de nossos dias e pelos transtornos da vida. Ela não é assim tão técnica, nossa civilização, e quando é, por vezes ela o é muito mal. É verdade que há nela aspectos da civilização de consumo; creio eu, é o essencial. Dever-se-ia fazer uma história do desenvolvimento dos objetos técnicos, que seria uma história por etapas, e observar que há uma espécie de retardo da cultura sobre a realidade. Ou seja, é preciso trazer um temperamento, deve-se modificar a ideia segundo a qual nós vivemos em uma civilização que é demasiadamente técnica; simplesmente, ela é uma má técnica. Ela é má técnica pois, a cada época, há uma espécie de pressão exercida pelos utilizadores para que os produtores exibam objetos de visual e características externas daqueles que existiram na geração precedente. Poder-se-ia chamar isso de uma histerese cultural, um rastro cultural, ou um retardo cultural. (p. 8-9)

Objeto técnico e ser vivo, progresso técnico, etapas do objeto técnico: inicial, dicotomizado, em rede.

Já dissemos que a característica primeira dos objetos técnicos, no momento em que se constituem, é o fato de se tratar de uma unidade, de seres indivisíveis, em qualquer medida, pois é este seu principal mérito. Uma boa roda deve ser uma roda indivisível desde o princípio. No que isto resulta? Isto resulta em: que os objetos técnicos se assemelham muito aos seres vivos, aos seres que nascem, que se desenvolvem – assim, o objeto técnico nasce e se desenvolve na fábrica – e posteriormente, possuem uma vida ao ar livre; e em seguida, perecem. O objeto técnico, primordialmente, é um objeto que, por princípio, não foi feito para sobreviver apenas por uma de suas partes. É um pouco como a carruagem de um poeta inglês citado por Norbert Wiener, diz ele "... dela tudo se usou ao mesmo instante e tudo desabou". Que seja, mas um objeto concebido dessa maneira é um objeto que apenas representa o ponto de partida e a primeira etapa da constituição técnica. Depois disso, o progresso técnico consiste, ao contrário, em que o objeto deve se dividir e se dicotomizar; uma parte dele, uma de suas bandas laterais, adapta-se ao mundo exterior, a outra ao utilizador e, neste instante, uma parte do objeto tende a se {10} perenizar, a outra muda e se desgasta, e se destina à instabilidade. Se tratado o objeto, no momento em que ele se dicotomiza, como um objeto onde tudo se desgasta em um mesmo tempo e deve ser descartado, comete- se um erro cultural essencial. Por exemplo, trocamos de automóveis que estariam ultrapassados, fora de moda, e aí está o mal; o mal é o fato de que em uma época determinada o objeto não seja conhecido segundo suas linhas essenciais (que são principalmente suas linhas evolutivas temporais), não seja conhecido como deveria pelos utilizadores, o que impulsiona ainda os fabricantes, voluntaria ou involuntariamente, a envolver o objeto técnico em uma publicidade de aparências que camufla a realidade essencial do objeto. A terceira etapa do objeto técnico é aquela do surgimento do objeto de rede, isto é, de um objeto relativamente amplificado. Neste caso, ele deve se tornar economicamente fácil de se adquirir e, sobretudo, simples de manter, pois ele deve ser mais revisado, deve ser relativamente segmentário, podendo cada parte de um certo objeto ser substituída, orientada em um padrão, por outra parte, quando surge uma avaria. No entanto, o objeto dicotomizado – do qual já falamos sobre – solicita um artesão altamente qualificado para poder ser reparado. Sob essas condições, há uma evolução do objeto técnico que incide no fato de que as realidades culturais devam ser as mais contemporâneas possíveis da verdadeira natureza do objeto. Se ainda se representa o que foi o objeto há 20 anos, conduz-se a um tipo de consumo ostentatório, a uma atitude errônea e, finalmente, a uma decepção; e assim, ao acusarmos o objeto técnico (tornado o diabo), o responsabilizamos por um todo que vai mal na sociedade. Mas o que vai mal, não é que o objeto técnico que seja maléfico e faça todo o resto também seguir mal, é simplesmente que, entre o Homem e a coisa, há um hiato, uma incompreensão, uma espécie de guerra. Aqui, acredito, é preciso restabelecer uma consciência sadia do fato de que não se trata de dizer apenas "objeto técnico" de modo geral; "objeto técnico", quer seja um objeto técnico em estágio inicial, quer seja um objeto técnico na etapa dicotômica, como o Ford "T", onde a tentativa é se adaptar a tudo, quer seja, enfim, um objeto de rede. E não é com as mesmas atitudes, não é com a mesma demanda de utilização, que se deve abordar cada uma dessas três etapas. Reintegrar historicamente o objeto técnico, informar os utilizadores (e também os produtores que, de algum modo, o ignoram) de que há falta da totalidade do objeto técnico no {11} presente histórico, seria esta a tarefa cultural mais importante a qual eu gostaria de alcançar. (p. 9-11)

Relação afetiva e emotiva com os objetos técnicos (fazer sociedade com eles - atitude intermediária ao amor ridículo e à escravização)

Sim, mas, na verdade, não é somente uma razão; certamente, há razão, há o conhecimento; para compreender um objeto técnico e para que haja uma atitude justa e direita em relação a ele, é necessário primeiro conhecer como ele é constituído em sua essência e testemunhar de sua gênese, seja diretamente quando possível, seja por ensinamento. Contudo, não existe ensino de história das técnicas. Isso é lamentável. Mas além da razão, além do conceito, do pensamento e da inteligência, pode haver, para além do aspecto teórico, uma certa relação com a realidade técnica, que é uma relação parcialmente afetiva e emotiva a qual não deve ser equivalente a uma relação amorosa ridícula; ela não pode ser nem muito apaixonada pelos objetos técnicos, nem exclusivamente apaixonada por um único objeto, e certamente, nem, de outra parte, completamente indiferente a eles os considerando como escravos. É preciso uma atitude intermediária de amizade, de sociedade com eles, de uma frequência correta e, se possível, com algo de ascético a fim de que se saiba utilizá-los mesmo quando são antigos, ingratos, e que haja uma certa gentileza pelo objeto antigo que a merece, se não por comoção, pelo menos pela aparência de sua idade e pelo respeito por sua autenticidade, pelo sentido de sua densidade temporal. (p. 11)

Racionalidade e valor cultural, intenção e atitude do objeto técnico, significação, obsolescência econômica e poética.

Sem dúvida, eu falei de uma essência do objeto técnico, mas esta essência não é unicamente racional – ou então que seja preciso ser racionalista, não pragmatista; de fato, é preciso ser racionalista e realista, crer que a razão atinge as coisas, que influencia os processos físicos, a totalidade do mundo – neste sentido, eu aceito bem a ideia de razão, desde que ela não seja restritiva e não implique um intelectualismo nominalista. (p. 12)

Sim, justamente, a razão é concebida como indutiva e como esforço de não afastamento do concreto, do real, a ambiência do uso do objeto técnico, de sua invenção, permanece muito próxima do mundo, pode mesmo se tornar uma maneira de decodificar o mundo com a velocidade, com modos de se olhar, com maneiras de se comportar, as quais um simples corpo não permitiria. Neste momento, o objeto técnico adquire um valor protético, ou "prostético", como disse Norbert Wiener. Ver o mundo de um avião, ver o mundo de um satélite, é vê-lo como jamais o Homem o viu concretamente, {13} a uma grande distância e com grande velocidade. Não se pode conceber como privilégio o bipedalismo para se olhar o mundo, ou o fato de transitá-lo de carro. Tudo é bom, desde que se reconheça que se tratam de velocidades e de altitudes diferentes. (p. 12-3)

E, particularmente, eu creio que cada um dos objetos técnicos pode ser tratado como possuindo uma intenção e uma atitude. Quando contemplamos um emissor, que está no alto de uma montanha, como o monte Pilat, cerca de 40 km daqui, vemos não somente o emissor como emissor, que está no lugar de um antigo telégrafo Chappe, mas há, além disso, a antena receptora parabólica que recebe o feixe de Paris e a outra antena, do outro lado da torre, que emite à Itália do norte, acima dos vales, acima da bruma, pelo pico do Ventoux e do Midi. (p. 13)

Veja que essa antena de televisão, nela mesma, não é se não metal, uma vasta parábola de metal inoxidável e um pequeno par radial ao centro; termina ela em um cabo coaxial. Ela é rígida, mas é orientada; vemos que ela enxerga longe e que pode captar sinais de um emissor distante. Parece- me que ela é mais que um símbolo, parece representar uma espécie de gesto, de intenção de um poder-ser quase mágico, de uma magia contemporânea. E neste reencontro do pico e do ponto-chave que é o ponto-chave da transmissão em hiperfrequências, há uma espécie de "conaturalidade" entre a rede humana e a geografia natural da região. Este é um aspecto de poesia, um aspecto de significação e de reencontros de significação. (p. 14)

De outro modo, podemos encontrar, em uma imersão no tempo, o poder poético do que era extremamente perfeito e que, de um dia a outro, pôde rapidamente ser destruído, pelo curso de uma evolução que é extrema e dramaticamente negativa, por aquilo que se apresentou um dia como uma novidade; vejamos as locomotivas a vapor, os grandes navios que são deixados de lado pelo desuso. O que se nomeia por obsolescência é uma realidade econômica mas, ao lado da obsolescência econômica, há uma espécie de ascensão poética, creio eu, não desenvolvida o suficiente. Faltam-nos poetas técnicos. (p. 14)

Máquina a vapor (termodinâmica) x motor elétrico (eletricidade)

Sim, certamente, esse ponto de vista é bastante interessante; mas a turbina, da máquina a vapor, é rigorosamente rotativa e de modo algum alternada. E, mesmo se alternada, a máquina a vapor se distingue da eletricidade no quesito de que ela possui uma força interna, uma acumulação interna de energia considerável. Uma vez, eu usei um locomóvel que foi usado para cortar madeira por uma serraria ambulante. Esse locomóvel, quando ele está com 8 kilos de pressão (as válvulas de segurança começam a oscilar e a liberar vapor), pode manter funcionando, durante uma hora e meia, a serra de mesa sem se aquecer. Nenhum motor elétrico é capaz de fazer algo similar. O motor elétrico é um pobre ser que necessita de uma rede; e se uma pane atinge a rede, o motor para. Mesmo um motor trifásico, supondo que uma só de suas três fases venha a falhar, ele para, ou funciona mal, e eis então porque a máquina a vapor é a soberana da continuidade, pois há nela uma potência reservada em seu próprio interior. Durante a guerra, estávamos muito felizes em ter locomotivas a vapor sobre malhas ferroviárias desmanteladas. Elas podiam passar em qualquer lugar; desde que houvesse um trilho, mesmo que um pouco danificado, a máquina a vapor passaria. As catenárias foram abatidas e as subestações de alimentação elétrica destruídas. Eu concordo com essa poesia, mas não é preciso que ela seja tão pontilhista, tão fenomenológica, pois a fenomenologia repousa sobre a percepção e isso é terrivelmente perigoso. É necessário ir ao fundo das coisas, ver a realidade, e sobretudo é preciso que seja o utilizador e não o espectador quem sente a realidade. (p. 15)

Sim, mas a máquina a vapor é mais universal. A máquina a vapor pode se alimentar de madeira, pode se alimentar de carvão – de carvão ruim. Pode- se aquecê-la não importa por qual fonte, ao passo que o alternador utiliza como motor (falamos do alternador industrial, não do pequeno motor que pode ser alimentado por bateria de 18 volts como aquela da câmera que funciona neste momento), o alternador requer uma fonte de energia de muitos kilowatts ou, pelo menos, de várias centenas de watts, que não podem ser fornecidos senão pela rede. No entanto, a rede é uma coisa falaciosa; ela não é absolutamente constante. Certamente, a rede é algo excepcional e permite o desenvolvimento das técnicas mas, por outro lado, é uma servidão estar atado à rede. A prova está em um automóvel que, por exemplo, ultrapassa a rede, carrega consigo sua própria reserva de combustível, ele vai mais longe, ele é flexível... (p. 16)

Ele {o automóvel} depende de um outro tipo de rede, de uma rede com a qual o contato não deve ser constantemente mantido, enquanto que o alternador deve manter seu contato com a rede por uma haste, por uma polia trolley, por uma tomada ou não importa por qual outro sistema permanente. Ele necessita de sincronização desde sua ignição. (p. 16)

Sim, {a eletricidade é sempre de boa qualidade,} mas apenas se sua frequência for constante! E ela é? Sim, em geral, em uma rede bem constituída a frequência é constante, em torno de 1/5000. (p. 17)

Mas se a eletricidade pode ser "de má qualidade" em certo sentido, tudo depende da utilização. Se seu uso é simplesmente como energia, para fazer girar um motor universal ou para esquentar um ferro – o que consiste neste último caso em degradar a energia essencial – ela é sempre boa para isso; mas caso utilizada a eletricidade como ponto de partida em uma base de tempo de 50hz ou ainda, ou melhor, como frequência para produzir um som puro a 50hz, constrangeria-mo-nos pois, comumente, há, além da sinusoide fundamental, pequenas irregularidades suplementares que não são agradáveis quando visualizamos a sinusoide no oscilógrafo catódico. (p. 17)

Trata-se então de uma pureza microfísica. No caso de uma corrente, sabe- se que se trata de elétrons em trânsito e não, evidentemente, de matérias químicas, de substâncias químicas mais ou menos refinadas. Do ponto de {18} vista fundamental e essencial, eu compreendo essa pureza, mas do ponto de vista informacional não é sempre verdade que a corrente seja aquilo que se espera. A corrente contínua produzida por geradores tem muitas vezes um componente musical bastante importante e a corrente alternada trifásica não estabelece sempre relações de fase entre três fases perfeitas, nem uma frequência rigorosamente estável e tampouco, sobretudo, uma ausência de harmônicos absolutos. (p. 17-8)

Sim, de fato, eu creio que o motor elétrico veio mais tarde, vindo antes a ciência, ciência esta que permitiu a teoria deste motor; ao contrário, a máquina a vapor se constituiu em uma época onde a ciência termodinâmica não havia se estabelecido ainda; é ela, a máquina a vapor, que nomeia a existência da ciência termodinâmica. No entanto, ainda existem imperfeições nesse motor, na máquina de Gramme ou no motor elétrico alternado, mais especificamente os fenômenos de histerese necessários à parada do motor e o que não se pode realmente prever: as perdas, devido a corrente de Foucault. A máquina de Gramme não é inicialmente perfeita; ela funciona em um primeiro momento, mas {19} vigorosamente se autolimita quando passa a uma velocidade elevada; o anel de ferro se aquece e o rolamento também, o que indica que seu rendimento não seria tão elevado. Para alcançar o belo rendimento de 90- 92%, pelo qual conhecemos a máquina de Gramme, há a necessidade ainda de aperfeiçoar o seu núcleo magnético invertendo-o e, igualmente, melhorando o coletor. Por exemplo, instalar carvões revestidos de cobre no coletor e não somente as escovas primitivas que causam faíscas e se desgastam rapidamente. (p. 18-9)

Teoria e empiria na constituição de máquinas do sec XIX

Penso que sim, {o alternador é uma máquina mais transparente que uma máquina a vapor,} no caso do alternador polifásico industrial, porque esse alternador se desenvolveu relativamente tarde; à sua frente estavam as experiências sobre a máquina de Gramme, que é uma máquina de corrente contínua ou alternada e que pode ser utilizada seja como máquina de emissão, produtora de energia, seja como máquina de recepção. O alternador polifásico veio mais tarde e ele é uma aplicação bastante direta da teoria de correntes alternadas, de sua produção; ele é de todo modo, se assim quisermos, reversível em relação ao motor de corrente alternada. O alternador industrial e o motor síncrono devem ser pensados na mesma corrente teórica a qual possibilitou a existência do transformador de {20} Ferranti. Estamos em 1880, por volta do tempo onde a ciência positiva está em vias de se desenvolver em direção à técnica mais poderosa possível, podendo ser mais potente do que jamais foi, com uma fé, com um entusiasmo que não se verá desde então. Tudo vai bem nesse momento. (p. 19-20)

União ciência e tecnologia (sex XIX e XX)

O início {de uma união entre técnica e teoria, ciências e técnica}, não, pois a termodinâmica e a eletricidade são relativamente mais antigas – a "transformação do magnetismo em eletricidade" foi realizada por Faraday em 29 de agosto de 1831, graças à montagem constitutiva do primeiro transformador; alguns anos mais tarde surgem os primeiros alternadores eletromagnéticos, depois a máquina de Siemens e enfim a máquina de Gramme e os grandes alternadores industriais – porém, em torno de uma amizade, da reversibilidade da teoria e da ciência: a amizade de uma pela outra e sua reversibilidade estão generalizadas nos arredores dessa época. Há um modo de pensamento, uma modalidade de cultura que é unitária, ou há ao menos uma profunda amizade, entre a ciência e a técnica. É a época do tubo de Crookes, do tubo de Coolidge, enfim um grande movimento das ciências bem como das técnicas. (p. 20)

Sim, mas um casamento que consome demais, a meu ver. Naquela época, era uma amizade e, se houve casamento, foi um casamento por amor. Ao passo que nesta época presente, é muito diferente; a relação é bastante organizada, muito administrativa no vínculo entre a indústria e os gabinetes de pesquisas técnicas por um lado e a ciência pura que, ainda assim, não é completamente pura, por outro lado. Atualmente, não há mais o entusiasmo da novidade. Naquele momento, em 1880, havia se descoberto justamente o fecundo vínculo da ciência com a técnica. Era essa a juventude deste reencontro que não é mais jovem, nem livre no momento atual. (p. 21)

Sobre o filme de Le Moyne

[Jean Le Moyne]: Então, eu me dirijo agora imediatamente aos nossos projetos; você já está um pouco familiarizado. O primeiro de nossos filmes tratará da roda; nós pretendemos conceber um filme em 35mm colorido, 20 minutos, sem uma palavra de comentário, sem uma nota musical, apenas com os barulhos da roda. A roda deve se explicar por sua plasticidade, por seu contexto e suas funções aparentes. Este projeto nos coloca enormes dificuldades quanto a estrutura que devemos dar ao filme. Porque, qualquer que seja o nosso ponto de partida, se tomamos um ponto de vista, um ponto de referência de um plano linear, ou se optamos por uma – como havia dito – obliquidade, partindo seja da roda-transporte, da roda-engrenagem, chegamos rapidamente a um nó que nos parece inextricável. Portanto, não sabemos bem se se trata de um problema de estrutura – como havia dito – filosófica, intelectual ou propriamente mecanológica, ou ainda de um problema puramente fílmico. Eu gostaria de saber o que você pensa de um projeto como este! (p. 21)

[Jean Le Moyne]: Pois bem. Suponhamos que a partida é a roda-transporte. De início, a roda-transporte se complexifica; ela se incrementa de engrenagens, de polias ou de anéis metálicos e, em seguida, ela se torna motriz e se torna mesmo motor, em uma certa circunstância. E assim, imediatamente, essa roda, que se tornou motor, encontra-se em uma junção de vários outros tipos de rodas ou, ainda, é associada a diferentes rodas; há toda uma sociedade de rodas que se impõe a nós, e aí está a dificuldade. Seria o ponto de vista histórico o mais adequado ou, ainda assim, de preferência, um ponto de vista genético? (p. 22)

{O ponto de vista genético} É o que eu levaria em consideração. Pois a roda não pode ser um presente dos deuses desde o princípio; há certamente algo que a precede e eu creio que é provável que a roda, salvo talvez a roda de oleiro, o torno de olaria, represente uma solução já relativamente complexa aos problemas do transporte, do transporte por deslize e do transporte por rolos; e a roda, em sua origem, uma vez possuindo um eixo e uma banda de rolagem, representa simultaneamente uma acha e algo em que existe atrito; o atrito é atenuado pela lubrificação ou pela água; e ele é mais atenuado ainda quando um eixo de metal se transforma em um rolamento interno de bronze. E em seguida, a roda se diversifica; o que, originalmente, foi uma jante, transformou-se em aro, transformou-se em pneu, assumindo muitos outros aspectos. Quanto ao eixo, ele se torna todo tipo de coisa: eixo a rolamento, eixo a cilindro, e, sobretudo, um eixo que se prolonga ao lado do veículo, pela articulação com a direção, através do sistema de barras de direção; ambos, em particular o trapézio que permite ao veículo realizar uma curva sem que uma das rodas derrape. Há vários outros aspectos que mereceriam ser assinalados, como a adaptação de uma porção da roda ao veículo e de outra parte à via. É, em suma, a etapa onde ela, a roda, mais {23} progride quando passa a ser um intermediário bastante vivo, quente, entre o mundo movente e movimentado, pois tratam-se ainda de vias imperfeitas na época dessa produção. A roda ferroviária é um belo exemplo que poderíamos citar. Na roda ferroviária, trata-se de uma roda arqueada, o aro externo serve efetivamente como uma contenção dos raios e um impedimento de alguma possível ruptura da roda mas, no mais, ela é um elemento que pode mudar após o degaste; ela assim se adapta a frenagem por um sapato metálico que consome suficientemente a velocidade. E é ainda, o que permite, graças a flange da roda, evitar o descarrilamento; e, por fim, graças à conicidade da banda de rolamento, é possível que a locomotiva e os vagões mantenham-se no centro da via, de modo que em andamento normal as flanges da roda não tocam os trilhos. É somente nas curvas mais acentuadas, ou no caso de um vento lateral intenso, que as flanges nomeadas "rebordas" tocam nos trilhos. Eis uma evolução da roda. Quanto às outras rodas, nomeadamente aquelas que não são rodas veiculares, eu creio que seria um estudo extremamente importante a se fazer; de minha parte, eu seria incapaz de descrever, ao menos por ora, um estudo sobre a roda veicular. Há uma linhagem de rodas veiculares e, possivelmente, ao lado delas, uma linhagem de rodas-engrenagem, desde a engrenagem na lanterna dos moinhos às altas engrenagens cônicas ou helicoidais que se utilizam em nossos dias. (p. 22-3)

Rodas-motrizes e rodas-motores

Tratam-se de casos similares, tanto a roda-motriz quanto a roda de um automóvel pois, no caso do trem, a roda motriz não é rigorosamente diferente, exceto pela sua dimensão, das rodas-transporte, dos truques dianteiro e, eventualmente, traseiro. No automóvel, a roda-motriz é tão diferente? Ao meu ver, não, ela pode ser dianteira, ou traseira, e traz somente uma complicação, no que concerne a junta homocinética de Cardan, quando ela é dianteira, ou seja quando ela é ao mesmo tempo direção. Quanto a roda-motriz por tração, ela é efetivamente mais complexa pois deve ser mais pesada a fim de que não patine; ela também possui ganchos de aderência, que eram metálicos antigamente, e que são hoje em geral substituídos pelas ranhuras no pneu, talhadas de uma maneira específica. Mas não há um problema particular da roda-motriz, como rotor, se ela é simplesmente transmissora de energia? Para que não haja derrapagem em uma curva, é preciso que os prolongamentos dos lados do trapézio de direção se seccionem sobre a porção média da ponte traseira; nas curvas, as rodas não são mais paralelas e elas podem descrever arcos de círculo de raios diferentes. Esse dispositivo representa, apenas no sistema das rodas, o que poderíamos chamar de uma consciência total do veículo por um lado e por outro da possibilidade de cada uma das rodas estarem perfeitamente adaptadas à via, pois afinal não derrapam e como consequência não há torção do pneu, etc. Assim, a roda do automóvel integra através da sua pneumática, uma adaptação à via; ela é informada {25} pela via (estrutura do pneu, flexão, etc.) e, igualmente, por sua relação com o veículo que, enquanto direção, reflete a dimensão geral do veículo e suas curvas possíveis. Este é o estágio dicotômico. Após este estágio, outros aperfeiçoamentos são possíveis, mas, neste momento, é o estágio dicotômico que permite o progresso adaptativo: a roda se aperfeiçoa em seus termos extremos: o aro, de um lado, e a junção ao veículo, de outro. (p. 24-5)

Sistema de rodas do automóvel

A roda ferroviária é o sistema ao qual nos referimos há pouco; é pela roda ferroviária ser cônica que sua flange não é senão um órgão de segurança. Aqui está a flange, aqui o eixo; o "cogumelo" (cabeça da mesa de rolamento) do trilho é representado assim e aqui a base do trilho. Isso é cônico; consequentemente, há uma tendência de deslize ao centro. Como, do outro lado, temos uma estrutura similar, igualmente cônica, há um equilíbrio para um ponto central. Tal equilíbrio não será rompido senão em um caso de vento lateral, ou no de uma curva muito acentuada, ou no caso ainda de frenagem do trem durante uma curva. Assim as rodas deslizam e se escoram pela flange contra o "cogumelo" do trilho. (p. 25)

Rodas ferroviárias

Não penso que haja {compensação diferencial}. Sim, claro, um deslocamento para o exterior da curva, sob efeito da força centrífuga, produz, em decorrência da conicidade das rodas, uma ligeira compensação diferencial: tudo se passa como se o raio da roda exterior se tornasse maior que a roda interior. O sistema do diferencial seria interessante para as rodas ferroviárias, bem como para os automóveis, sobretudo quanto às curvas muito acentuadas. Mas as curvas de uma estrada de ferro são sempre bem menos acentuadas que as curvas de uma via comum. O diferencial age plenamente sobre um automóvel quando ele manobra, isto é, quando ele quase gira em falso sobre o terreno. Os carros antigos, sobre vias que eram estradas de terra, como se diz, um tanto arenosas, não possuíam diferencial. E o automóvel poderia ainda assim funcionar. No entanto, uma curva de pequeno raio poderia causar uma derrapagem porque um dos pneus patina. O diferencial é interessante quando há curvas acentuadas, ou quando o revestimento é um revestimento bastante "friccional" como a superfície dos pneus. No caso dos antigos pneus a alta pressão, isto não é necessário. Para os pneus atuais a baixa pressão, que têm desenhos planejados e que aderem bem à via asfaltada, e para as rodas que possuem um sistema de suspensão e de amortecimento mantidas em contato constante com a via, o diferencial é necessário. Porque então, os pneus cantariam, desgastar-se-iam rapidamente; e por outro lado, afetaria, penso eu, o manuseio. Seria, em todo caso algo não plenamente eficiente; uma parcela de energia se degradaria devida ao atrito. (p. 26)

Reciprocidade e reversibilidade da roda como gerador ou receptor

Pessoalmente, eu não saberia fazê-la {uma reflexão genética sobre essas rodas singulares e de imediata complexidade que são os primeiros moinhos a água como o moinho grego imerso em uma corrente; em seguida, as rodas d'água de pás inferiores, laterais ou superiores e, finalmente, as turbinas}. Mas algumas ideias me ocorrem. De fato, as primeiras rodas de determinado tipo estão imersas em um fluido que a natureza faz mover. Todas as imersões posteriores ocorrem em um meio técnico e onde se produz voluntariamente o fluido que suaviza a roda-motriz e se injeta sobre esta roda, sob o ângulo mais favorável, com a melhor velocidade e, às vezes, depois de passar por um sistema de conversão de pressão em velocidade. Há ainda as linhagens que surgem claramente que, talvez, pudéssemos nomear como uma essência técnica que se desprende. Com efeito, a roda, utilizada nesse sentido, é a recíproca da roda do veículo. Aqui, a roda permanece fixa e é o ambiente quem se movimenta em relação a ela. É portanto necessário também que uma parte da roda não esteja submetida a um fluxo de fluido – neste caso, o fluido é colhido por meio de placas ou telas como em alguns moinhos – ou então que a roda seja talhada de maneira tal que o fluido escorra sobre ela e reaja contra os entalhes, que provoque uma força de rotação; é este o caso da roda do moinho de vento atual, onde as pás estão inclinadas em relação ao vento; é também o caso da hélice. Podemos assim notar, me parece, que na história dessas rodas receptoras, há ainda um outro tipo de recíproca, onde quase todas puderam ser utilizadas para mover os fluidos como uma bomba, como um órgão ativo de uma bomba ou, ainda, novamente quase como rodas veiculares, para permitir um navio – a roda de lâminas – avançar sobre o fluido que o sustenta. E a turbina e a hélice são absolutamente reversíveis. Lembro-me de ter visto, em uma usina de uma antiga construção parisiense, uma enorme hélice de avião utilizada como ventilador da usina. Era majestosa: ela tinha, enfim, encerrado seu período {28} nobre e ativo de hélice motora para se tornar ali um simples ventilador. E esse é um caso de reciprocidade, de reversão. (p. 27-8)

Roda do moinho de vento

E é também reversível a máquina de Gramme, que pode ser efetivamente revertida, de motor a emissor de energia, gerador, na condição de rearranjar a posição da linha de contato dos carbonos relativos aos coletores. (p. 28)

Gênese biológica e gênese técnica

Eu não sei {se é possível falar de um movimento genético real, no momento da invenção, e não analítico, a posteriori, como se fala no caso da biologia}. O único elemento que me parece claro de alguma maneira e capaz de se impor, é aquele da reversibilidade; entre a roda giratória da qual você falou e a batedeira de manteiga, não há uma diferença muito grande. Pode-se mover a água através de lâminas, como também se pode, com água corrente, fazer girar as lâminas. Mas eu não estou certo de que haja linhagens unilineares, um filo, como diriam os biólogos, na evolução das técnicas; essa evolução me parece sobretudo pertencer a uma ordem de uma racionalidade que pode se impor ao mesmo tempo a vários povos e em diversas etnias. Há pouco, falamos dos cabos das ferramentas; é preciso considerar o fato de que o encabamento das ferramentas por madeiras duras se realiza mais facilmente com um anel, pois um anel requer um nó, se não ele pode romper a madeira. Assim como os encabamentos por um encaixe de conexão são próprios aos costumes dos {29} povos do Norte, ao passo que nas florestas do Norte encontra-se sobretudo madeiras moles de longas fibras (há muita água, as árvores crescem rápido, como os Vidoeiros, ou como as Faias, são madeiras relativamente moles): a conexão abraça o cabo. Tratamos sempre de cultura. E a cultura remete, naturalmente, à História. Mas ela remete ainda ao que poderíamos chamar de razões técnicas da utilidade, da inteligência, e ela remete enfim a uma natureza envolvente; não se faz uma ferramenta com qualquer material e de qualquer modo. Então, talvez não se deveria crer no aspecto unilinear da evolução técnica; os povos mudam de habitat, e o habitat se modifica conforme, às vezes, a mudança do clima; talvez estes sejam os elementos sobre os quais se deve refletir antes de adotarmos a ideia unilinear de evolução. Isto não significa a rejeição da ideia de evolução, mas sim dizer que ela pode não ser unilinear; talvez ela seja um leque, talvez ela seja proliferativa tal qual uma evolução natural. (p. 28-9)

Três conceitos fundamentais: concretude, sinergia e homeostase

[Jean Le Moyne]: Mas você ainda reconhece alguma conciliação filosófica com os sistemas concernentes à vida e um pouco acerca do mesmo problema, do mesmo velho problema do nominalismo e da arbitrariedade na distinção dos gêneros, das espécies e, assim mais uma vez, somos forçados a criar divisões a partir de uma imaginação [...trocando bobina do filme...]. É isso? Não é algo tão importante, se considerarmos um pequeno desvio em torno do problema da roda! Eu apreciaria muito, Sr. Simondon, que você pudesse desenvolver os três conceitos fundamentais os quais nos abrem literalmente a máquina, precisamente o conceito de concretude, o seu contrário a abstração e os conceitos de sinergia e homeostase. (p. 29)

Concretude do objeto técnico como significado da relação do OT consigo mesmo (ressonância e reverberação)

A concretude (e poderíamos cunhar outro termo), significa primeiramente, essencialmente, a relação simples e direta do objeto técnico consigo mesmo. Um objeto é chamado concreto quando ele não é uma ânsia do pensamento; quando ele não é uma visão criadora de uma espécie de sociedade mecânica na qual cada uma das peças trabalha em revezamento, independentemente uma das outras, como pessoas que trabalhariam sobre o mesmo objeto sem enxergarem e conhecerem umas às outras devido ao fato de serem acionadas sucessivamente. O objeto concreto é aquele no {30} qual há o que podemos nomear de uma ressonância ou reverberação interna, isto é, constituído de uma tal maneira que cada parte tenha ciência da existência das outras partes, seja modelada por elas, pelo grupo que elas formam, podendo portanto desempenhar um papel plurifuncional. Ela não apenas é informada pelas outras peças, mas também desempenha um papel em função delas, ela está em relação com as outras peças. Por exemplo, as nervuras, as ranhuras salientes encontradas sobre os cilindros de um motor com resfriamento a ar servem para, obviamente, dissipar o calor pelo ar, aumentando a superfície de contato; elas podem ainda ser utilizadas pelo construtor para aumentar a rigidez do cilindro: trata-se de um papel bifuncional. Há vários casos interessantes. Eu falava da turbina Guimba ou do grupo-bulbo; a turbina Guimbal é um caso do grupo-bulbo. Neste caso, é preciso supor um problema resolvido para que ele seja solucionável. Trata-se, enfim, da criação de um grupo que poderia por inteiro caber no interior de uma tubulação, incluindo o alternador (não somente a turbina, mas também o alternador). A ideia de Guimbal era a seguinte: construir um alternador suficientemente pequeno para que ele pudesse caber em um cárter selado logo atrás da turbina. Mas se é construído um grupo muito pequeno, se é feito um alternador muito pequeno, ele não é capaz de dissipar seu calor porque o fio será frágil devido a sua secção reduzida e, por consequência, a resistência ôhmica principal conduzirá uma grande dissipação de energia, podendo assim queimar o conjunto. Guimbal resolveu o problema da seguinte maneira: supondo que o problema estaria resolvido, isto é, supondo que o alternador é suficientemente pequeno, ele pode ser alocado no interior de uma tubulação e, cabendo no interior da tubulação, ele pode ser isolado com óleo, banhado inteiramente no óleo; ao passo que o alternador gira, o óleo se move e ele transporta o calor do interior das bobinas para o cárter; o cárter está no coração da tubulação. E este cárter está em contato com a água que se move com muita força pois acabou de passar pela turbina. Desta forma, obtém-se uma dissipação de calor que é superior ao que se obteria com um alternador maior girando no ar. E o fato de haver óleo no interior do alternador permite criar uma supressão que, através das juntas, {31} impede a entrada de água. E assim acima da barragem, não há nada, não há uma estação, apenas uma guarita com uma reserva de óleo destinada a fornecer pressão ao interior do cárter do alternador. Eis um exemplo de simplificação ou concretização na qual foi necessária a suposição de um problema resolvido para que tudo fosse um concreto. Concreto, ou seja concretum, é qualquer coisa de que se dispõe e na qual, organicamente, nenhuma de suas partes pode ser completamente separada das outras sem que esta perca seu sentido. (p. 29-31)

Transistor e triodo

Sem dúvida, o transistor é um caso exemplar de concretude condensada. Se ele tem, contudo, uma ligeira inferioridade em relação ao tubo eletrônico a cátodo quente e a vácuo perfeito: é o fato de não possuir um ecrã. Eu sei que tentamos, por diversas técnicas, criar um equivalente de um ecrã eletrostático entre os eletrodos ativos. E apesar de tudo, o transistor continua, na maioria dos casos, um triodo e apresenta as características e as deficiências do triodo: existem junções involuntárias, nesse instante, entre os eletrodos ativos, particularmente entre o eletrodo de controle que é chamado de base de um transistor e o eletrodo de saída, ou coletor. (p. 31)

Talvez eu tenha escrito isso, não me lembrava disso, mas creio ainda que falta, em alguns casos, reconhecer que quando passamos do estado vigorosamente dicotômico dos objetos técnicos a um terceiro estado que corresponde melhor à rede técnica e assim a utilizações bem mais flexíveis, mais multifuncionais, algo se perde. Quando se passa do tubo {32} eletrônico a cátodo quente e a vácuo ao transistor, algo se perde. Falta acrescentar os circuitos de neutrodinagem se se desejar que um transistor não auto-oscile em algumas de suas montagens. O belo pêntodo tem sua perfeição própria. Naturalmente, o transistor é bem menor; ao invés de 250 volts de tensão anódica, ele se contenta com 9 ou 12 volts, e até menos, 6 volts para os transistores de alta frequência; mas enfim, ele é menos perfeito, sob alguns aspectos, se não levarmos em conta nem o tamanho, nem a resistência às acelerações, nem a quantidade de energia consumida. (p. 31-2)

Sinergia como plurifuncionalidade

A sinergia corresponde ao fato de que, em um objeto concreto, há uma característica não autodestrutiva das diferentes partes umas em relação às outras, e não somente não autodestrutiva (é suficiente que estejam isoladas, essas diferentes partes, para que não sejam destrutivas umas em relação às outras) mas, sobretudo, é necessário que se ajudem, isto é que quando plurifuncionais, contribuam para um mesmo propósito, que é a realização de um mesmo fim; deste modo, em um pequeno motor como um motor a dois tempos de motocicleta ou de velomotor, pode-se dizer que toda a massa do motor é utilizada para o resfriamento. Há sinergia de diferentes partes para a função de resfriamento. Há outros casos de sinergia nos quais poderíamos pensar; a sinergia funcional se caracteriza pelo fato de que há uma continuidade interna; encontraríamos casos notáveis de sinergia se considerássemos um estudo da estrutura de um alto-forno no qual, na parte inferior, ocorre a fusão, um pouco acima a carburação, um pouco mais acima, sobre as partes cônicas do alto-forno em forma de cone invertido, ocorre o aquecimento do mineral, este aquecimento é realizado por gases quentes que ascendem e assim o gás proveniente da combustão, em vez de ser rejeitado como inútil e ser jogado ao exterior, serve para aquecer o conjunto da massa do mineral e do carvão que chegam pela porção superior; pela chaminé, derrama-se as matérias primas; essas matérias primas, descendo pouco a pouco, beneficiam-se dos produtos da {33} combustão que ocorre logo abaixo. A parte que trabalha se situa abaixo, mas todo o resto está em estado de preparação. (p. 32-3)

Pode-se encontrar vários outros exemplos: a preparação do ácido clorídrico se usa de mudanças de temperatura, o forno de pudlar se utiliza de uma divisão onde uma parte trabalha e uma parcela espera para ser trabalhada; assim a combustão do gás aquece o ferro-gusa que ainda não foi colocado no interior do forno e, para voltar ao forno de que falamos há pouco, a sinergia não é apenas uma sinergia de baixo para cima, mas igualmente uma sinergia cíclica ou rotativa pois, ao redor do alto-forno, existem recuperadores Copwer os quais recebem o gás da chaminé, que ainda está a 400 ou 500 graus, se aquecem internamente (eles possuem divisórias de tijolo) e, depois que um dos aquecedores, um dos recuperadores, está devidamente aquecido, alimenta-se o alto-forno através desse recuperador; o ventilador envia o ar frio para o recuperador, que o reenvia quente à porção inferior do alto-forno onde ocorrerá a combustão. São necessários dois ou três recuperadores para servir um único alto-forno. Eis alguns aspectos de sinergia nas operações técnicas. (p. 33)

Homeostase, regulação informacional e vida. Exemplo da lâmpada.

Sem dúvidas {a homeostase remete uma analogia com o ser vivo}, mas essa analogia surgiu muito cedo. Ela não começou no dia em que as máquinas de informação foram apresentadas como robôs, se posso assim dizer. Dever-se-ia "desmitificar" o robô e tudo a ele relacionado. É a partir de uma literatura nociva que a técnica é culpabilizada, como também apreciada de uma certa maneira por nossos contemporâneos. Se tomamos o simples exemplo de uma lâmpada, vemos que se trata já de um fenômeno de regulação, mas, neste caso, a informação está associada a um elemento, a informação não está separada. No que consiste a informação em uma lâmpada? Ela consiste no fato de que, principalmente, a combustão se mantém por si; o pavio ao acender, fornece o sinal de inflamação a todas as moléculas sucessivas de petróleo, ou de óleo ou de não importa qual outro combustível conduzido na {34} lâmpada. Existe, pois, o que podemos chamar de uma reação positiva entre a parte acesa do pavio e a reserva de combustível contendo as moléculas que, aleatoriamente, irão subir a partir da reserva; em seguida, há uma regulação, que se deve ao fato de que quanto maior a chama, mais intensa a corrente de ar. (p. 33-4)

Que se regule bem ou mal uma lâmpada à combustão em seu início, ao longo de dez ou vinte minutos, ela estará bem regulada. Por quê? Se o pavio for ajeitado muito embaixo, ocorre um fenômeno extremamente curioso, que é quando o bico esquenta (é nesta parte que eu queria chegar). As partes laterais do bico – essas aqui – que são de metal condutor, irão se aquecer. Se então ajeitamos o pavio mais acima no interior, vai aquecer ainda mais pois a chama tocará diretamente o metal. E, pouco a pouco, o petróleo vai ebulir no interior e vai queimar como vapor de petróleo no exterior. A chama, ao longo de dez minutos, será novamente grande. E se agora, nós ajeitarmos o pavio propositalmente muito acima, como aqui por exemplo, a lâmpada vai fumegar, mas, em seguida o bico se resfriará pois haverá uma corrente de ar intensa através da chaminé, a corrente de ar se nutre parcialmente do exterior e do interior – o ar entra por aqui (A) mas uma parte entra por ali (B), resfriando assim o interior, a outra parte traga o bico cônico ao exterior (C). Isto ocorrendo, de uma parte o bico se resfriará, de outra parte o pavio queimará na parte não alimentada pela capilaridade. Afinal a capilaridade tem um máximo; há um limite, se assim posso dizer, de condução capilar do reservatório até a chama. Resultado: ao longo de um determinado tempo, a chama estará {35} normalizada. Há um fenômeno de feed-back ou reação negativa nesse caso. (p. 34-5)

Lâmpada de petróleo

É mesmo verdade que em uma lâmpada como esta, que é uma lâmpada a óleo bastante elementar, haja baixa fluidez, pouca capilaridade e muita viscosidade; para que toda a reserva de óleo possa chegar à combustão, é necessário que apesar do aquecimento, não haja uma diferença maior do que 3 centímetros entre o ponto de combustão e o fundo do reservatório. É preciso, ainda, que o pavio se distribua em todo o interior do reservatório; temos então um pavio em forma de polvo. Aqui está o bico; o pavio pode se dividir em várias partes, permitindo assim que todo o óleo queime até o final e a chama seja mais ou menos igual no fim ou no início da combustão. Há fenômenos de auto-regulação também em outras lâmpadas, e mesmo uma tocha pode ser em alguma medida auto-reguladora e de qualquer modo poderia ser hétero-reguladora pois se pode incliná-la como se desejar; é a inclinação que ordena a velocidade da combustão. (p. 35)

Lâmpada a óleo

Três estados maquínicos: estático, dinâmico e reticular (elemento, indivíduo, conjunto?)

[Jean Le Moyne]: Eu chego agora à segunda parte do nosso projeto, que é inteiramente derivada do seu pensamento; é sobre o modo de existência dos objetos técnicos, no qual você distingue três estados maquínicos, precisamente o estado estático, o estado dinâmico e, talvez possa soar um tanto exagerado, mas não creio que seja, o estado reticular. Nós pensamos em três filmes sobre esse três estados. Fale-nos o que você acha desse conjunto de coisas e, particularmente, acerca do terceiro tipo de estado que, do ponto de vista de imagem e estrutura, parece nos impor sérias dificuldades. (p. 35)

Ferramentas como pré-história dos OTs, rede como relação entre realidade humana e natural

Para tratar diretamente desse aspecto que é o terceiro estado, eu creio que poderíamos refletir, no que concerne ao domínio de uma produção de um filme, de um documentário, um pouco mais sobre um estudo das ferramentas. Há uma pré-história do objeto técnico, que é a ferramenta. E a ferramenta é de um ensinamento riquíssimo. Ela foi {36} estudada de maneira extraordinária por Leroi-Gourhan. Quanto à rede, eu penso que essa noção possa em alguma medida colocar alguns problemas. Ela oferece ainda uma gama extremamente ampla de percepção, e mesmo de percepção ampliada, no domínio das técnicas. Ela oferece, não apenas no que se trata de grandes coisas em todos os sentidos do termo e coisas que estão em um exterior, pois também a existência de uma mediação entre o Homem no sentido coletivo do termo, o Homem em sociedade de uma parte e a natureza de outra. Não haveria rede se não houvesse uma determinada estrutura natural de um lado, uma certa necessidade humana de outro lado e então a invenção de uma relação harmoniosa entre tal natureza e a necessidade humana. A rede é o reencontro da possibilidade técnica e da existência natural. Exemplo: as estradas e as curvas de nível. Creio que poderíamos refletir acerca das antigas redes, àquelas das pistas, das estradas, da reforma sucessiva das estradas, das que foram as primeiras estradas guiadas pelos avanços naturais (como o corredor do Ródano), acerca dos vales, dos estreitos das montanhas e então acerca das estradas feitas por razões estratégicas e sempre retas quando possível; em seguida, no séc. XIX, as estradas conduzidas pelas curvas de nível; e por fim, nos nossos dias, elas voltam a ser cada vez mais retas pois a curva se tornou uma coisa perigosa para o automóvel, potente o bastante para atravessar uma rampa, mas incapaz de realizar uma curva com velocidade sem derrapar. Rede rodoviária, rede para transmissão de informação, telefonia, radiotelegrafia, conjunto de redes permitindo acompanhar satélites e os controlar – pois há lá também redes – e enfim redes de transportes, sem esquecer dos transportes estáticos mas que são muito importantes: eletricidade, pipelines, oleodutos e ainda, talvez, algumas outras características das redes que não existem por enquanto e que contudo podemos imaginar tanto para informação quanto para outras funções que seriam de rede a rede, consequentemente entre os nós das redes. (p. 35-6)

Redes humanas. Exemplo do avião.

Sim, evidentemente, as redes pedagógicas, mas igualmente as redes humanas. Eu pensei várias vezes que um dia poderíamos instalar {37} aeródromos em locais mais altos, realizar as montagens dos aeródromos empregando a técnica de Jaeger, que permite aterrizar em contra- inclinação e decolar utilizando o sentido da inclinação, o que é bastante econômico e bonito. A energia máxima empregada por um avião, é aquela que ele dispende para subir alguns milhares de metros, os quais ele desce para aterrizar. É um tempo perdido e uma energia desperdiçada. Se decolássemos de um lugar mais alto, se aterrizássemos em um lugar mais alto, permanecendo em torno da mesma altitude, teríamos realizado algo extremamente racional para a aviação. E assim, com exceção, talvez, do telégrafo Chappe e, antigamente, pela transmissão do sinal de fumaça dos antigos, as montanhas foram até então pensadas como lugares desolados – e com rigor, em nossos dias, como locais de lazer – e jamais como lugares de suprema eficácia e de nenhum modo técnicos; é preciso redescobrir a montanha. As montanhas são lugares já técnicos porque a energia elétrica abaixo das montanhas utiliza a água sob pressão que ela provê. Entretanto se desconsiderarmos esse uso, as montanhas não são lugares técnicos; seria preciso desenvolver as capacidades técnicas das montanhas: inicialmente, a busca por um sol mais intenso, mais puro e mais constante, que permitisse utilizar por exemplo energia solar, como em Saint-Gaudens, em Mont-Louis, nos Pireneus, na França; posteriormente, constituir nós de rede; o nó das redes deveria ser feito nas montanhas e não nas planícies. Há uma vocação real das montanhas em serem os nós das redes técnicas. É uma ideia. Enfim, estudar as redes é interessante, mas estudar os nós das redes e a correlação entre as redes, é o que, na minha opinião, deveria ser o objeto cultural de um estudo minucioso das técnicas, voltado para o futuro. (p. 36-7)

Sim, {isso evoca a ideia de módulos no espaço-tempo,} mas eu não havia pensado na época na importância daquilo que é mais desfavorecido; eu creio hoje que há uma espécie de dialética na evolução das técnicas e que podemos encarregar as técnicas de realizar uma parte do trabalho cultural; não apenas não são anti-culturais como {38} também são portadoras de um fermento cultural. E, precisamente, creio que as técnicas sozinhas, em seu desenvolvimento mais audacioso, mais intenso e mais puro, seriam capazes de fazer com que os lugares mais desfavorecidos do mundo inteiro se tornassem os lugares mais privilegiados, refiro-me aos montes e às montanhas. Uma espécie de inversão da civilização seria realizável pela reconfiguração das redes, graças ao desenvolvimento de novas técnicas. (p. 37-8)

Já haviam redes: as rotas nos oceanos – as "estradas" dos navios – já são redes e os caminhos sobre a terra são igualmente redes; as rotas mercantis, as rotas de grandes correntes de pessoas são redes; mas, para além disso, há várias outras coisas, é preciso pensar, creio eu, em direção ao futuro, naquilo que podemos fazer conscientemente com a ideia de reticulação e, sobretudo, com a ideia de sinergia das redes. A noção de sinergia de que falamos há pouco, nós a evocamos agora no âmbito das redes. (p. 38)

Reticulação

Sim, {a noção de reticulação é como um cone que se abre para o futuro,} e portanto nos deparamos com o fato de que aquela velha dualização entre alma de um lado e matéria de outro, entre passado e futuro, não se {39} sustenta se analisada em profundidade do que se trata a realidade técnica; ela é uma realidade humana, oriunda da realidade humana e compreendemos muito bem que a condição de uma análise profunda não é ser vítima disso que chamei há pouco de um retardo cultural, de histerese cultural; é possível assim se alcançar algo bastante forte e poder, pelo contrário, dar confiança ao desenvolvimento das técnicas consciente e inteligentemente pensadas para uma promoção cultural, para uma verdadeira revolução cultural. Eu penso, agora, em... (p. 38-9)

Objeto técnico como intermediário entre o ser vivo e o ambiente

Não é à "racionalidade" que dirigi meu pensamento. Com base no ser vivo, eu vi o objeto técnico como intermediário entre o ser vivo e seu ambiente; por um lado, um intermediário que serve ao recebimento de informação, um instrumento... Uma câmera, o que ela faz? Ela não produz nada, ela recebe a informação, ela a fixa. E mais tarde ela será reutilizada sob forma de informações para transmitir a outras pessoas, em outras condições. É isto a informação, este é o objeto de informação. Um telescópio, um microscópio são instrumentos de informações. Eles estão ao lado dos órgãos dos sentidos. Talvez eles sejam protéticos, que sejam próteses, mas ainda ao lado dos órgãos dos sentidos. E, por outro lado e se opondo, há a ferramenta e todos os seus prolongamentos, as máquinas, que estão ao lado da operação. Eu não me orientei pela razão pois creio que a relação com o {40} objeto técnico começa abaixo da razão, ela começa rumo à percepção, ela começa rumo à ação do corpo, mas talvez falte, efetivamente, indagar-se também no âmbito da razão. De qualquer forma, não, não seria estritamente um modo operatório, seria também um modo perceptivo, respondendo a sua questão. Mas eu diria antes "aspecto cognitivo" ao invés de "razão", aspecto cognitivo e mesmo perceptivo, ao invés de razão. Podemos subir em um avião para ver o país, é perfeitamente legítimo... (p. 39-40)

Razão e racionalidade

Sim, {falamos antes de razão do que de racionalidade} mas talvez ela ainda assim não seja capaz de reforçar a ênfase sobre o aspecto cognitivo... Enfim, ao menos na nossa cultura filosófica, quando falamos de razão pressupomos a ideia a priori ou o esquema kantiano. É por isso que eu tenho evitado o termo razão, priorizando antes o aspecto cognitivo que pode ser também perceptivo já racionalizado por indução e mesmo dedutivamente. "Razão" é muito abstrato. E o objeto técnico possui sempre algo de concreto relativo a sua ação no mundo, sobretudo quando ele se manifesta de um modo protético, como disse Norbert Wiener. (p. 40)

Rede e transmissão de informação

Mas primeiro as redes existem para transmitir informação; e só então elas permitem viagens de um modo geral, permitem a troca de qualquer {41} documento e permitem a circulação de objetos; elas constituem uma espécie de universalidade em atos, tanto do ponto de vista perceptivo quanto do ponto de vista operatório. (p. 40-1)

Reticulação x contradição (Marx)

Sim, {a ideia de reticulação} me parece ser uma síntese não violenta nem com a natureza nem com o Homem. E eu sempre estive intrigado com o aspecto tão violentamente dicotômico, por exemplo no pensamento marxista, bem como em outros tipos de pensamentos, dessa relação entre a natureza e o Homem. O Homem é o virtuoso ser associado, a natureza surge sempre frente ao Homem como algo a ser transgredido, dominado, imitado, etc. Essa dualidade existe desde a cultura antiga. É uma relação de dois termos apenas, o que me parece ruim. O objeto técnico é muito interessante na medida em que ele faz emergir um terceiro termo, que é um termo de realidade física, pois o objeto técnico é feito de metal, de madeira, etc.: ele provém da natureza. E esse objeto técnico não estabelece uma relação de violência com a natureza e, quando ele surge como intermediário entre o Homem e a natureza, ele surge como um terceiro, como uma espécie de μεταξυ (metaxy) organizando a relação e permitindo à sociedade humana estar, com relação à natureza, em um vínculo simultaneamente concreto mas muito mais sofisticado e menos perigoso para o Homem, como já dissemos tempos atrás. E menos perigoso também para a natureza, menos destrutivo, mais inteligente e tecido sob uma grande escala que não apenas a da emergência do Homem apartado; o Homem apartado gera muita devastação; um Homem bem tecnicizado, inteligentemente tecnicizado através de uma rede, que possui um sentido geográfico, é muito menos perigoso para a natureza que o Homem apartado. Portanto, penso que falte o terceiro termo, que é a rede, concomitantemente natureza e Homem e {42} não somente técnica; ele é técnica em um sentido, mas uma técnica que é ao mesmo tempo natureza e Homem. Trata-se de um terceiro termo; é um termo de mediação, um meio-termo como diriam os Gregos, aquilo que falta para organizar uma relação. (p. 41-2)


  1. Simondon, Gilbert, Jacques Parent, Jean Le Moyne, e Rainer Miranda Brito, trad. 2019. “Entrevista sobre a mecanologia”. Mimeo: boletim de traduções e documentos de antropologia e áreas afins 1 (agosto):4–42. https://portais.univasf.edu.br/antropologia/arquivos-documentos/mimeo/mimeo-n1_2019.pdf.