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Experimentações teóricas, fichamentos e outros comentários descartáveis

Hegemonia cibernética, tecnoextrativismo e colonialidade

Rafael Gonçalves
24/03/2025
Henrique ParraAlana Moraescolonialidadecomumextrativismotecnologiacibernéticatecnocenofichamento

Fichamento da apresentação de dossiê "Hegemonia cibernética, tecnoextrativismo e colonialidade"1 de Henrique Parra e Alana Moraes.

Abstract

No presente texto apresentamos algumas considerações teóricas e conceituais que percorrem zonas de contato entre os estudos sociais da ciência e da técnica e os estudos sobre a emergência ecológica. Tais considerações interpelam a noção de Tecnoceno a partir da analítica da colonialidade e suas expressões ontoepistemológicas, permitindo-nos visualizar relações entre tecnologias extrativistas, a virada cibernética e novas formas de controle constituídas por uma certa metafísica informacional. Sugerimos alguns caminhos de reflexão que entrelaçam o ímpeto pela expansão da codificação do mundo, a ampliação de um regime de equivalências através da “governamentalidade algorítmica” com a gramática política e epistêmica da geologia colonial.

A pandemia como evento que explicita o arsenal colonial da hegemonia cibernética

Para além dos grandes esquemas conceituais que logo surgiram a fim de confirmar sua contemporaneidade e relevância diante do colapso, há também uma certa intuição generalizada de que nem a política moderna e suas tecnologias de governo nem a arquitetura ontoepistemológica da ciência moderna e seu funcionamento disciplinar são capazes de oferecer caminhos para além daqueles que nos fazem voltar sempre ao mesmo “beco sem saída”, como lembrava Aimé Césaire. Simplificação ecológica, expropriação, deslocamentos forçados, contaminação, confinamento, pandemias: o arsenal da colonialidade é o que permite e incrementa novas tecnologias de extração e controle para além da já conhecida “coleta de dados”, produzindo o próprio meio da vida social pela expansão da tecnosfera, permitindo assim que a economia suplante, dia após dia, a vida mesma. (p. 2)

Governamentalidade algorítmica e colonialismo

A nova governamentalidade algorítmica (Rouvroy; Berns, 2015) pode ser,então,pensada como atualização tecnopolítica de um regime estrangeiro e deslocalizado de controle total e ordenamento do mundo da vida (e não apenas do trabalho, como já demonstram os inúmeros estudos sobre plataformização, gig economy ou uberização do trabalho). Com o colonialismo, ela compartilha “o prazer da racionalização ultrajante, a paixão pela redução, o gozo do achatamento binário” (Tiqqun, 2013, np). Essa nova forma de controle busca não só saber o que as pessoas fazem e o porquê, mas também intervir em suas próximas condutas. Expande-se,assim {3} a chamada data-driven rationality: “Um novo regime de produção de conhecimento em que o processamento de dados por meio de estatísticas avançadas e os modelos de previsão informam as decisões, ações e relações” (Ricaurte, 2019,p. 350) (p. 3)

Capitalismo > vetorialismo (~Wark)

Tendo em vista todas essas transformações, McKenzie Wark (2022) defende,em seu último trabalho,a tese de que já não estamos sob a égide do capitalismo tal como conhecemos. As classes globais dominantes são hoje aquelas capazes de controlar os “vetores”da informação, sua classificação, distribuição, valoração, os fluxos de dados, as formas de comunicação e suas infraestruturas. Agora, “não há nada que não possa ser marcado e capturado por meio de informações e considerado uma variável nas simulaçõesque impulsionam a extração e o processamento de recursos”(Wark, 2022, p.67). O vetorialismo opera uma inédita forma de captura: a produção de informação/dados em escalas inimagináveis é feita por uma “mão de obra livre” em um movimento de {4} produção incessante através de seus ecossistemas relacionais e de atenção, suas formas de criar, sentir e compartilhar. “Dada a quantidade enorme de informação disponível, inteligência passa a ser a capacidade de processar, filtrar, indexar, cruzar informações para elaborar um produto mais ‘acabado’com o nome de ‘conhecimento’”(Rhatto, 2024, p. 69).Ou,como sugere Pasquinelli (2023, p. 2017, p. 213; tradução nossa), o que chamamos agora de inteligência artificial produz como o efeito mais imediato a imposição de “padrões de inteligência mecânica que propagam, de forma mais ou menos invisível, hierarquias sociais de conhecimentos e competências [...].Contra a previsão de Alan Turing, é o mestre, e não o trabalhador, que o robô veio substituir em primeiro lugar”. (p. 3-4)

Nesse mundo ordenado pelos “vetorialistas”, o debate sobre informações “falsas”e “verdadeiras”parece perder de vista o fato de que, para um vetor, o que importa é permitir os fluxos com o mínimo de fricção, o máximo de autorregulação e o crescimento exponencial do tempo online: o conteúdo da mensagem é mero detalhe. O volume de informação circulante alcança proporções inéditas e pode ser comparadoa um novo lixo industrial em constante expansão, produzindo todo o ecossistema informacional e sem compromisso algum com qualquer programa ético comum de “veracidade”. (p. 4)

Dominação ocidental do meio e colonialidade racial

Por mais que essas transformações tecnopolíticas sejam firmemente amparadas em um discurso sobre “inovação”, o ímpeto de uma dominação irrestrita do meio pelo projeto moderno ocidental não pode ser pensado, entretanto, sem o próprio repertório técnico da colonialidade racial. Para Jackie Wang, vivemos um regime afetado pela “crise de incerteza” –um problema tanto informacional quanto existencial e que vem moldando o modo pelo qual habitamos o mundo. “Quanto menos no controle nos sentimos, mais desejamos a ordem [...]Catástrofes, guerras e epidemias de crime podem aprofundar ainda mais nosso desejo coletivo por segurança” (Wang, 2022, p.225). Ela segue dizendo que, “na Era do Big Data”, a incerteza é apresentada como um problema que pode ser superado por uma coleta cada vez mais abrangente de dados, que, por sua vez, produziria melhores eficiências em relação às limitações analíticas humanas na identificação de padrões, de desvios e de riscos. Emerge uma nova forma de “tecno-governança que opera na intersecção entre oconhecimento e o poder”(Wang, 2022, p.225),contando com um modo de funcionamento nada transparente e que, muitas vezes, “codifica a desigualdade racial dentro do risco”(Wang, 2022, p.227). (p. 4)

Tecnoceno

A noção de Tecnoceno utilizada por Hermínio Martins (2018) nos permite analisar os processos que tornam possível o Antropoceno sob uma perspectiva complementar, na qual os efeitos que produzem essa nova era geológica resultariam da agência tecnológica que ultrapassa os processos psico-físico-biológicos que constituem o Homo sapiens sapiens. Por outros caminhos, Anders (2011) sugeria que, depois da bomba nuclear, a técnica se converteria definitivamente em “sujeito da história”. Martins (2018) argumenta que a trajetória da nossa espécie se tornou interdependente e mutuamente promotora da tecnicização e da mercantilização; a combinação do desenvolvimento tecnocientífico com as dinâmicas capitalistas de mercantilização promovetransformações radicais na própria caracterização do humano, do seu corpo e das instituições que regulam a vida social, dando forma ao Tecnoceno. (p. 5)

Colonização do pensamento e lutas tecnoinformacionais pela comunicação

Assim como o capitalismo industrial deixou para trás um rastro desigual de danos ecossistêmicos e toxicidades, o Tecnoceno parece ir além e se expande “colonizandoo pensamento como uma entidade ontológica soberana, expulsa a pluralidade conceitual [...] ligadaà maquinaria da dominação, produz a indigência e a destruição”(Rhatto, 2024, p. 149). Para Berardi, o poder na modernidade se fundava na força de impor sua própria voz e neutralizar, “fazer calar” as massas –um regime tecnoinformacional no qual fazia sentido reivindicar um “direito à comunicação”. Mas o poder contemporâneo, segue o filósofo, faz funcionar uma tormenta de vozes incompreensíveis. Ele “estimula a expressão e obtém suas leis de controle a partir do processamento estatístico dos dados que provêmdo ruído do mundo. O som social é transformado assim em ruído branco e o ruído branco é transformado na ordem política”(Berardi, 2020, p. 30). (p. 5)

Apropriação do Comum e colonialismo

Há, assim, um novo e inédito avanço sobre o Comum (em suas diferenças constitutivas e irredutíveis) operado pelas dinâmicas de extração e capturas transnacionais na escala planetária: energia, meio ambiente, corpos, subjetividades e tempo vital (Gago; Mezzadra, 2015). É o regime extrativista que funda, pelo empreendimento transatlântico colonial, o que podemos chamar hoje de América. Como mostra Machado Aráoz, ele constitui a ecologia política da Modernidade (Aráoz, 2015-2016). Nesse momento inaugural, o “novo mundo”era lido pelas potências colonizadoras como o reino da exuberância caótica e do excesso desgovernado, características que tornar-se-iam obstáculos para o desenvolvimento da Razão. É a ação de ordenar, controlar e corrigir na busca por mais “eficiência”da terra, como ato de poder e posse, que impulsiona o aparato da conquista e da aniquilação de povos. (p. 6)

Semiótica da geologia branca e gramática da extração no capitalismo cibernético

Pegando emprestada a semiótica da “geologia branca” e sua gramática de extração, o capitalismo cibernético soube converter em “dados” e “informação” –fazendo atuar,assim,a ficção de uma matéria nãohumana e inerte –um conjunto de relações, afecções, criações, aprendizagens e a própria produção do mundo social, ao mesmo tempo que converte em “recursos” uma série de ecossistemas minerais e sua gente, ampliando as “zonas sacrificáveis” do planeta em nome de um inquestionável “progresso tecnológico”. O truque da gramática geológica, afirma Yusoff, foi imprimir no mundo uma grande classificação hierarquizada entre coisas vivas e inertes, e,assim,neutralizar, mas também “desanimar” o mundo. (p. 7)

Colonialismo > capitalismo cibernético

Tomar o capitalismo cibernético como herdeiro da catástrofe ancestral (Povinelli, 2016) do colonialismo é partir também da constatação de que,“para muitas regiões do Sul, na verdade, recriar a vida a partir do invivível tem sido a condição reinante ao longo deséculos” (Mbembe, 2021, p. 26). Como sabemos, o colonialismo foi justificado, muitas vezes, por uma suposta “superioridade técnica” do mundo ocidental que lhe conferia um consequente dever moral de “civilizar” e “desenvolver” o mundo “selvagem”, “caótico”,“lento”, “ineficiente”. É também pela “epidermização digital”, como fala Simone Browne(2015),que certos corpos são renderizados como código digitalizado: o corpo reduzido como dado biológico, portador de um código e fixado na lógica de padrões e recorrências, continuamente ameaçado por ficções de previsão securitária ou biovigilância. (p. 7)

Do mesmo modo, o extrativismo pode ser pensado como aquilo que oferece toda a gramática racial que garante a expansão da colonialidade para além dos regimes propriamente coloniais, atuando como esse “padrão de relacionamento instituído como pilar estrutural do mundo moderno, como base fundamental da geografia e da 'civilização' do capital, pois o capitalismo nasce de e se expande com e através do extrativismo” (Aráoz, 2015-2016,p. 15). (p. 7)

Imaginações do futuro tecnológico

O mais importante, no entanto, é que tais imaginações de futuro tecnológico, como bem insiste Sun-ha Hong, atuam na captura e obstrução dos nossos sonhos transformativos e insistem em um futuro no qual nada de significativo precisa mudar radicalmente. Comosugere a artista Eleonora Fabião, imaginar transforma a matéria. Imaginar e experimentar outras tecnicidades que nos permitam retomar o tempo e o prazer da partilha é o que desejamos como prática de estudo e experimentação investigativa. (p. 8)

Capitalismo logístico e colonialidade

Fred Moten e Stefano Harney (2023) sugerem que estamos diante da expansão do que eles chamam de “capitalismo logístico”, uma forma de domínio e condução fundada pelo empreendimento colonial, mas que segue se associando a muitas outras formas de colonização da vida, como faz o novo regime técnico-informacional. O capitalismo logístico, dizem eles, “busca acesso total ao seu idioma, tradução total, transparência total, o valor total de suas palavras”(Moten;Harney, 2023, p. 65). Agora, “somos violentamente convidados a exercer nosso direito de nos conectar, nosso direito à liberdade de expressão, nosso direito de escolher, nosso direito de avaliar, nosso direito à individualidade correta para que possamos aprimorar a linha de produção que atravessa nossos sonhos liberais” (Moten;Harney, 2023, p.65). Contra essa forma de captura, eles sugerem o emaranhamento, ou o movimento “errado”, imprevisível, perturbando os caminhos dos fluxos e as expectativas sobre “correção”permanente das nossas existências. (p. 8)

Tecnologias da incompletude, capoeira Angola (opacidade ~ Glissant)

Se as promessas de novas IAs são aquelas de, através de nós mesmos, poder “completar”o que não sabemos, o que não conhecemos, o que podemos corrigir ou melhorar, com Moten e Harney podemos afirmar tecnologias da “incompletude” – não como “etapa”inferior de um momento final e aprimorado, mas como condição de abertura permanente, de partilha permanente daquilo que não pode ser representado e hesita em ser convertido em “dado”. Medeiros e Galdino (2024) retomam a Capoeira Angola para nos fazer pensar sobre outras tecnologias do corpo –ou da relação do corpo com o mundo. Contra as tecnologias de captura, a Capoeira Angola atua pela imprevisibilidade acima de tudo: “sua opacidade é a sua força”. Aqui, a produção de um território existencial acontece pela vibração dos corpos suscitada e conduzida pelo {9} berimbau. Comunhão, festa, a ginga. Não a recusa técnica ou a ficção de uma origem, mas nos interessa pensar e atuar através das formas técnicas que insistem no comum que não pode ser capturado (subcomuns): formas lentas de cuidado e cultivo, o improviso, a cozinha aberta, as interdependências multiespécie, o inseparável, memórias incontáveis, o tempo e a terra retomados, o estudo que fazemos através de relações de cumplicidade: “a única defesa é a abertura. A única posse é a despossessão” (Moten;Harney, 2023, p. 93). (p. 8-9)

Tecnoextrativismo ontológico, o caso Amazônia NFT

O artigo de Frederico Salmi e LorenaFleury–Tecnoextrativismo ontológico, o caso Amazônia NFT–analisa um fenômeno recente e ainda pouco investigado nas ciências sociais, mas inicialmente abordado por movimentos sociais e coletivos ativistas socioambientais,indígenas e por jornalistas investigativos que observaram in locoa emergência dessa frente de expansão do capitalismo informacional financeirizado sobre os territórios amazônicos. O artigo apresenta o processo tecnoextrativista pelo qual territórios ancestrais e entidades cosmológicas são convertidos e capturados numa longa cadeia sociotécnica que produz um tipo de entidade híbrida denominada NFT amazônico (non-fungible token). Tal convergência, expressão da aliança entre tecnologias digitais-cibernéticas, mercado financeiro e corporações internacionais, indica novas práticas de extração de valor e controle sobre territórios e formas de vida. Ao converterem digitalmente elementos existentes do mundo físico (coordenadas geoespaciais de um território) ou criações artísticas em imagens digitais únicas, o NFT simula a criação de artefatos digitais únicos (NFT), através de tecnologias de blockchain, que poderão ser inseridos como bens monetários no mercado transnacional de crédito de carbono. Todavia, tendo em vistaa complexidade e as assimetrias tecnológicas, epistêmicas e econômicas envolvidas na realização dessa operação, os autores problematizam como essas práticas promovem dinâmicas neocoloniais de poder que podem intensificar as relações de dominação sobre povos indígenas e seus territórios, colocando também em questão o funcionamento desse arranjo tecnoliberal (crédito de carbono) no combate às mudanças climáticas. (p. 10)

A trincheira dos porcos na Guerra de Mundos: ecologia política da suinocultura nos EUA, México, Brasil e Argentina

O texto A trincheira dos porcos na Guerra de Mundos: ecologia política da suinocultura nos EUA, México, Brasil e Argentina,de Allan Rodrigo de Campos Silva, inscreve-se na confluência dos estudos da ecologia política, economia, geografia e epidemiologia para descrever as relações que promovem a monocultura tecnocientífica na indústria transnacional de produção de carne. Em diálogo com autores que investigaram a eclosão de patógenos que produziram epidemias recentes (últimas décadas) e,mais especificamente,a pandemia de Covid-19, CamposSilvadescreve como a organização da cadeia produtiva do agronegócio transnacional cria paisagens dedicadas à produção concentrada de animais, que acabam promovendo as condições de surgimento de novos patógenos protopandêmicos. Na medida em que essas atividades apresentam enorme impacto socioambiental em seu entorno, a manutenção desse arranjo produtivo gera uma distribuição socioespacial dos riscos e impactos sobre populações e territórios específicos, refletindo as assimetrias geopolíticas (neocolonialismo molecular, químico ou viral) que atuam nos deslocamentos e relocalizações das unidades de produção. Ademais, quando observamos historicamente as populações afetadas e a organização da distribuição do trabalho, o artigo indica como a externalização estratégica dos riscos sanitários e a busca de mercados menos regulamentados (direitos trabalhistas e proteções ao meio ambiente) dão forma a dispositivos de racialização praticados por essa indústria transnacional. (p. 10)

Reimaginando o social em tempos de pandemia: negacionismo científico, diplomacia brasileira e o “vírus do comunismo”

Já no artigo Reimaginando o social em tempos de pandemia: negacionismo científico, diplomacia brasileira e o “vírus do comunismo”,Thiago da Costa Lopes contribui com uma análise aguda sobre as estratégias discursivas adotadas pelo governo Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 na criação de formas de enquadramento interpretativo sobre o vírus Sars-Cov-2. Adicionando novas camadas interpretativas ao debate existente, o autor destaca como as estratégias de cooperação internacional no enfrentamento da pandemia –desde medidas de biossegurança até colaboração tecnocientífica para a produção de vacinas –criaram impasses para a diplomacia brasileira imersa na defesa de uma “ideologia antiglobalista”. Ao mesmo tempo, para sustentar o desmonte das políticas de proteção social, na defesa de medidas neoliberais e necropolíticas de exposiçãoao risco e retomada das atividades econômicas, foram criadas estratégias discursivas que incidiam “sobre os elos que ligavam os enunciados mais elementares a respeito da doença e do vírus a asserções, necessariamente mais frágeis, envolvendo a ação prática e as decisões políticas a serem tomadas para sua contenção”(Lopes, 2024,p. 10). A estratégia adotada pelos intelectuais das novas direitas extremistas visava atacar tanto as instituições detentoras do conhecimento institucionalizado como seus representantes: “não é a verdade enquanto tal que é objeto de descrédito por parte das novas direitas, mas a crença em seu acessopor meio das autoridades estabelecidas. Assim, a instauração de um novo regime político capaz de devolver ao ‘povo’o lugar que lhe foi usurpado pelas ‘elites’passa forçosamente pela refundação do regime comunicacional e epistêmico vigente”. Asações sanitárias tomadas por diversos países para a redução do contágio eram simultaneamente enquadradas como autoritárias ou comunistas –“o comunavírus” –e confrontadas com a apresentação de “fatos alternativos” que objetivam interrogar a eficácia dessas medidas. (p. 10-11)

Agricultura Digital: uma análise a partir do colonialismo de dados

No artigo Agricultura Digital: uma análise a partir do colonialismo de dados,de Patricia Capelini Borelli e Pâmela Garrido Senise, observamos novamente a interconexão e as relações de codeterminação entre a produção socioespacial física na agricultura e a produção informacional desterritorializada dos dados digitais que alimentam o capitalismo contemporâneo. As autoras descrevem o crescimento da chamada Agricultura Digital, como um fenômeno de convergência entre a crescente digitalização e dataficação das diversas atividades que compõem as práticas do agronegócio e as tecnologias digitais, infraestruturas e modelos de gestão informacional oferecidos por empresas internacionais de tecnologia. Por um lado, graças à crescente conectividade e digitalização promovida por sensores IoT (internet das coisas), uma nova frente de produção e coleta de dados é criada. Dados sobre as condições ambientais (solo, água, chuva, temperatura, etc.), características das plantas, plantio e colheita, passam a ser coletados e fluem para centrais de processamento e análise.
Ao mesmo tempo, as empresas de tecnologia oferecem soluções de gestão informacional, análise e tomada de decisão, bem como equipamentos, sementes, agrotóxicos e até acesso a financiamento que correspondam aos cenários e demandas tecnopoliticamente construídas. Na medida em que tais tecnologias e toda a infraestrutura (física e lógica) que garante seu funcionamento estão sob o domínio de grandes corporações internacionais, as autores problematizam a formação do colonialismo de dados (Couldry; Mejias, 2018), graças à perpetuação e aprofundamentoda assimetria econômica e política entre os centros detentores das tecnologias, permitindo uma apropriação do conhecimento (controle sobre a coleta, transmissão, armazenamento e análise) e dos valores obtidos pelo uso estratégico dos dados. Considerando o poder das grandes empresas de tecnologia na introdução dessas tecnologias no campo, tal processo pode indicar a maneira como gradualmente as {12} práticas do mundo físico são modificadas para se adequarem às exigências de melhor funcionamento de uma tecnologia específica. Em suma, para que a agricultura de precisão e os algoritmos de análise e predição possam operar corretamente, as práticas da agricultura poderão ser reorganizadas e funcionalizadas sob um novo acoplamento tecnológico. (p. 11-12)

Provincializando a Sociedade de Risco: uma análise a partir da “geopolítica da nuclearidade”

Por fim, o texto do Bruno Lucas Saliba de Paula –Provincializando a Sociedade de Risco: uma análise a partir da “geopolítica da nuclearidade”–interroga as problematizações enunciadas pela formulação da Sociedade de Risco, de Ulrich Beck (2011), no sentido de revelar os mecanismos de distribuição desigual dos riscos associados aos efeitos de atividades econômicas e tecnocientíficas. Ao analisar como a noção de “nuclearidade” de uma atividade é transformada conforme o contexto social, histórico e geográfico, o autor revela as relações de poder geopolítico e a organização assimétrica da divisão internacional do trabalho envolvido na cadeia produtiva do urânio. Eleacompanha como diferentes atores numa pequena cidade do interior do Brasil –movimentos sociais, comunidades afetadas, indústria e governo –interpretam e produzem evidências sobre a periculosidade do urânio, revelando como a própria fabricação dos fatos depende de um complexo arranjo entre ciência, tecnologia e relações de poder. Como rastrear e produzir evidências que indiquem relações de causalidade entre as atividades de mineração de urânio, a concentração de doenças nas comunidades próximas e a contaminação da água, terra, plantas e animais do entorno não é algo trivial. Trata-se também de um embate no interior do campo científico sobre as definições do regime de evidências e das definições de contaminação ou nuclearidade, dando a ver a formação de uma distribuição desigual dos riscos, aqui caracterizada como “geopolítica nuclear” (Hecht, 2012) (p. 12)


  1. Parra, Henrique Zoqui Martins, e Alana Moraes de Souza. 2024. “Apresentação do Dossiê – Hegemonia Cibernética, Tecnoextrativismo e Colonialidade: Considerações sobre o Tecnoceno”. Mediações - Revista de Ciências Sociais, agosto, 1–14. https://doi.org/10.5433/2176-6665.2024v29n2e51043.