Maquinações
Experimentações teóricas, fichamentos e outros comentários descartáveis

Tema, método e objetivo do Argonautas do pacífico ocidental

Rafael Gonçalves
30/03/2026
Bronislaw Malinowskiantropologiaobservação participanteetnografiatrabalho de campo

Fichamento da introdução sobre "Tema, método e objetivo desta pesquisa" de Argonautas do pacífico ocidental de Bronislaw Malinowski1.

Papula-melanésios: comércio, artesanato e navegação

Os papua-melanésios, habitantes da costa e das ilhas periféricas da Nova Guiné, não são exceção. Todos, de man entre trobriandeseseira geral, são navegadores destemidos, artesãos laboriosos e comerciantes perspicazes. Os centros de manufatura de artigos importantes — como artefatos de cerâmica, implementos de pedra, canoas, cestas finas e ornamentos de valor — encontramse em localidades diversas, de acordo com a habilidade dos habitantes, a tradição herdada por cada tribo e as facilidades especiais existentes em cada distrito. Desses centros, os artigos manufaturados são transportados a diversos locais, por vezes a centenas de milhas de distância, a fim de serem comercializados. (p. 55)

O Kula como objeto do livro

Esse sistema de comércio, o Kula, é o que me proponho a descrever neste volume. Como veremos mais adiante, trata-se de um fenômeno econômico de considerável importância teórica. Ele é fundamental na vida tribal e sua importância é plenamente reconhecida pelos nativos que vivem em seu círculo, cujas ideias, ambições, desejos e vaidade estão intimamente relacionadas ao Kula. (p. 56)

Perspectiva científica: comparação com a física e com a química

Os resultados da pesquisa científica, em qualquer ramo do conhecimento humano, devem ser apresentados de maneira clara e absolutamente honesta. Ninguém sonharia em fazer uma contribuição às ciências físicas ou químicas sem apresentar um {57} relato detalhado de todos os arranjos experimentais, uma descrição exata dos aparelhos utilizados, a maneira pela qual se conduziram as observações, o número de observações, o tempo a elas devotado e, por fim, o grau de aproximação com que se realizou cada uma das medidas. (p. 56-7)

A etnografia científica

A etnografia, ciência em que o relato honesto de todos os dados é talvez ainda mais necessário que em outras ciências, infelizmente nem sempre contou no passado com um grau suficiente desse tipo de generosidade. Muitos de seus autores não utilizam de forma plena o recurso da sinceridade metodológica ao manipular os fatos e apresentam-nos ao leitor como que extraídos do nada. (p. 57)

É fácil citar muitas obras de grande reputação e cunho aparentemente científico, nas quais se fazem as mais amplas generalizações, sem que os autores nos revelem algo sobre as experiências concretas que os levaram às suas conclusões. (p. 57)

A meu ver, um trabalho etnográfico só terá valor científico irrefutável se nos permitir distinguir claramente, de um lado, os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, de outro, as inferências do autor, baseadas em seu próprio bom senso e intuição psicológica. (p. 57)

Na etnografia, o autor é, ao mesmo tempo, seu próprio cronista e historiador; suas fontes de informação são, sem dúvida, bastante acessíveis, mas também extremamente enganosas e complexas; não estão incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim ao comportamento e à memória de seres humanos. Na etnografia, muitas vezes é imensa a dist{58}ância entre a apresentação dos resultados da pesquisa e o material bruto das informações coletadas pelo pesquisador por meio de suas próprias observações, das asserções dos nativos, do caleidoscópio da vida tribal. (p. 57-8)

Chegada ao campo: contato, língua e tecnologia

Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista.. Tendo encontrado um lugar para morar no alojamento de algum homem branco — negociante ou missionário —, você nada tem para fazer a não ser iniciar seu trabalho etnográfico de imediato. Suponhamos, além disso, que você seja apenas um principiante, sem nenhuma experiência, sem roteiro e sem ninguém que possa auxiliá-lo — pois o homem branco está temporariamente ausente ou, então, não se dispõe a perder tempo com você. Trata-se da descrição exata de minha iniciação na pesquisa de campo, no litoral sul da Nova Guiné. Lembro-me bem das longas visitas que fiz às aldeias durante as primeiras semanas, do sentimento de desespero e desalento após inúmeras tentativas obstinadas, embora inúteis, para tentar estabelecer contato real com os nativos e deles conseguir material para a minha pesquisa. Passei por fases de grande desânimo, quando então me entregava à leitura de um romance qualquer, exatamente como um homem que, em crise de depressão e tédio tropical, entrega-se à bebida. (p. 58)

Realmente, voltei {sozinho} como planejara. Logo reuniram-se os nativos ao meu redor. Trocamos alguns cumprimentos em inglês pidgin, dei-lhes um pouco de tabaco — e assim criou-se entre nós uma atmosfera de mútua cordialidade. Tentei, então, dar início ao meu trabalho. (p. 59)

Primeiro, comecei por “fazer tecnologia”, a fim de não entrar diretamente em assuntos que pudessem levantar suspeitas entre os nativos. Alguns deles estavam absortos em suas ocupações, fabricando algum objeto. Foi fácil observá-los e deles obter o nome dos instrumentos que estavam usando e até mesmo algumas expressões técnicas relativas aos métodos de trabalho; mas o assunto ficou nisso apenas. (p. 59)

Devemos ter em mente que o inglês pidgin é um instrumento muito imperfeito como veículo de comunicação. Até que se adquira prática em formular perguntas e entender respostas, tem-se a impressão desconfortável de que, com o inglês pidgin, jamais conseguiremos comunicar-nos livremente com os nativos. Assim, no início não me foi possível entrar em conversas mais explícitas ou detalhadas com os nativos. (p. 59)

Diante da limitação da língua, é possível levantar um material "morto"

Eu sabia perfeitamente que a melhor solução para esse problema era coletar dados concretos e por isso passei a fazer um recenseamento da aldeia: anotei genealogias, esbocei alguns desenhos, fiz uma relação dos termos de parentesco. Isso tudo, porém, permanecia material “morto”, que não podia me levar a entender a verdadeira mentalidade e o comportamento dos nativos, pois eu não conseguia obter deles nenhuma boa interpretação de quaisquer desses itens nem atingir o significado intrínseco da vida tribal. (p. 59)

As informações dadas por moradores brancos do distrito

As informações que me foram dadas por alguns dos moradores brancos do distrito, apesar de válidas para meu trabalho, eram ainda mais decepcionantes. (p, 59)

E, como era de esperar, a maioria desses homens tinha preconceitos e opiniões já sedimentadas — o que é inevitável no homem comum, seja ele administrador, missionário ou negociante, mas repulsivo aqueles que buscam uma visão objetiva e científica da realidade. (p. 60)

Importância de estar sozinho: o segredo da pesquisa de campo eficaz

De fato, em minha primeira pesquisa etnográfica no litoral sul, foi somente quando me vi só no distrito que pude começar a realizar algum progresso em meus estudos e, de alguma forma, descobri onde estava o segredo da pesquisa de campo eficaz. (p. 60)

Aplicação sistemática e paciente de regras e princípios

Qual é, então, a magia do etnógrafo, com a qual ele consegue evocar o verdadeiro espírito dos nativos, numa visão autêntica da vida tribal? Como sempre, só se pode obter êxito com a aplicação sistemática e paciente de algumas regras de bom senso, assim como de princípios científicos bem conhecidos, e não pela descoberta de qualquer atalho maravilhoso que conduza ao resultado desejado, sem esforços e sem problemas. (p. 60)

Princípios metodológicos

Os princípios metodológicos podem ser agrupados em três unidades: em primeiro lugar, é lógico, o pesquisador deve ter objetivos genuinamente científicos e conhecer os valores e critérios da etnografia moderna. Em segundo lugar, deve o pesquisador assegurar boas condições de trabalho, o que significa, basicamente, viver mesmo entre os nativos, sem depender de outros brancos. Por fim, deve aplicar certos métodos especiais de coleta, manipulação e registro da evidência. Algumas palavras são necessárias a respeito desses três fundamentos da pesquisa de campo. Comecemos pelo segundo, o mais elementar dos três. (p. 60)

1. Condições de pesquisa: contato o mais íntimo possível do etnógrafo com os nativos

Como já dissemos, o pesquisador deve, antes de mais nada, procurar afastar-se da companhia de outros homens brancos, mantendo-se, assim, em contato o mais íntimo possível com os nativos. Isso só se pode conseguir de fato quando se acampa dentro das próprias aldeias (p. 61)

Os nativos, é verdade, não são os companheiros naturais do homem civilizado; após convivermos com eles durante longas horas, observando-os no trabalho do plantio e ouvindo-os discorrer sobre itens de seu folclore ou discutindo seus costumes, é natural que sintamos falta da companhia de nossos iguais. Mas, se nos encontramos sós na aldeia — ou, em outras palavras, sem a companhia do homem branco —, podemos fazer um passeio solitário durante uma ou duas horas, voltar e, então, como acontece naturalmente, procurar a companhia dos próprios nativos, dessa vez como lenitivo à solidão, como se faria com qualquer outra. Por meio desse relacionamento natural, aprendemos a conhecê-los, familiarizamo-nos com seus costumes e crenças de modo muito melhor do que quando dependemos de informantes pagos e, como acontece com frequência, entediados. (p. 62)

É enorme a diferença entre relacionar-se esporadicamente com os nativos e estar de fato em contato com eles. Que significa estar em contato? Para o etnógrafo, significa que sua vida na aldeia, no começo uma estranha aventura ora desagradável, ora interessantíssima, logo assume um caráter natural em plena harmonia com o ambiente que o rodeia. (p. 62)

Com o passar do tempo, acostumados a ver-me constantemente, dia após dia, os nativos deixaram de demonstrar curiosidade ou alarme em relação à minha pessoa e não se sentiam mais tolhidos com minha presença — deixei de representar um elemento perturbador na vida tribal que devia estudar, alterando-a com minha aproximação, como sempre acontece com um estranho em qualquer comunidade selvagem. Sabendo que eu meteria o nariz em tudo, até mesmo nos assuntos em que um nativo bem-educado jamais ousaria intrometer-se, os nativos realmente acabaram por aceitarme como parte da vida deles, como um mal necessário, como um aborrecimento mitigado por doações de tabaco. (p. 63

Tudo o que se passava no decorrer do dia estava plenamente ao meu alcance e não podia, assim, escapar à minha observação. O alarme ante a aproximação do feiticeiro, à noite: uma ou duas brigas e questões de fato sérias, os casos de doença e as tentativas de cura, os falecimentos, os rituais de magia que deviam ser realizados — todas essas coisas ocorriam bem diante de meus olhos e, por assim dizer, à soleira de minha porta; eu não precisava sair à procura delas nem me preocupava com a possibilidade de perdêlas. Devo ressaltar que, se algo dramático ou importante ocorre, é imprescindível que o investiguemos na hora, no momento em que acontece, pois assim os nativos naturalmente não podiam deixar de comentar o ocorrido, estando excitados demais para ser reticentes e interessados demais para ter preguiça mental de relatar os detalhes do incidente. Muitas e muitas vezes também cometi erros de etiqueta que os nativos, já bem acostumados comigo, apontavamme de imediato. Tive de aprender a comportar-me como eles e desenvolvi certa percepção para aquilo que eles consideravam “boas” ou “más” maneiras. Dessa forma, com a capacidade de aproveitar sua companhia e participar de alguns de seus jogos e divertimentos, fui começando a sentir que entrara mesmo em contato com os nativos. Isso constitui, sem dúvida alguma, um dos requisitos preliminares essenciais à realização e ao bom êxito da pesquisa de campo. (p. 64)

2. Conhecimento de teoria antropológica

Conhecer bem a teoria científica e estar a par de suas últimas descobertas não significa estar sobrecarregado de ideias preconcebidas. Se alguém parte numa expedição decidido a provar certas hipóteses {65} e é incapaz de mudar seus pontos de vista constantemente, abandonando-os sem hesitar ante a pressão da evidência, sem dúvida, seu trabalho é inútil. Mas, quanto maior for o número de problemas que leve consigo para o trabalho de campo, quanto mais habituado esteja a moldar suas teorias aos fatos e a decidir quão relevantes eles são às suas teorias, tanto mais estará bem equipado para seu trabalho de pesquisa. As ideias preconcebidas são perniciosas a qualquer estudo científico; a capacidade de levantar problemas, no entanto, constitui uma das maiores virtudes do cientista — esses problemas são revelados ao observador por meio de seus estudos teóricos. (p. 64-5)

O pesquisador de campo depende inteiramente da inspiração que lhe oferecem os estudos teóricos. É certamente possível que ele próprio seja também um pensador teórico; nesse caso, encontrará em si próprio todo o estímulo à sua pesquisa. Mas as duas funções são bem distintas uma da outra e, na pesquisa propriamente dita, devem ser separadas tanto cronologicamente como por condições de trabalho. (p. 65)

{A etnologia} Transformou o extraordinário, inexplicável e primitivo mundo dos “selvagens” numa série de comunidades bem organizadas, regidas {66} por leis, que agem e pensam de acordo com princípios coerentes. (p. 65-6)

A ciência moderna, porém, nos mostra que as sociedades nativas têm uma organização bem definida, são governadas por leis, autoridade e ordem em suas relações públicas e particulares e estão, além de tudo, sob o controle dos laços extremamente complexos de clãs e parentesco. (p. 66)

Suas crenças e seus costumes são coerentes, e o conhecimento que os nativos têm do mundo exterior lhes é suficiente para guiá-los em suas diversas atividades e empreendimentos. Suas produções artísticas são prenhes de sentido e beleza. (p. 67)

Bem diversa {da afirmação "nenhum costume, maneiras horríveis"} é a posição do etnógrafo moderno que, armado com seus quadros de termos de parentesco, gráficos genealógicos, mapas, planos e diagramas, prova a existência de uma vasta organização, demonstra a constituição da tribo, do clã e da família e apresenta-nos um nativo sujeito a um código de comportamento e de boas maneiras tão rigoroso que, em comparação, a vida nas cortes de Versalhes e do Escorial parece bastante informal. (p. 67)

O objetivo fundamental da pesquisa etnográfica de campo é, portanto, estabelecer o contorno firme e claro da constituição tribal e delinear as leis e os padrões de todos os fenômenos culturais, isolando os de fatos irrelevantes. É necessário, em primeiro lugar, descobrir o esquema básico da vida tribal. Esse objetivo exige que se apresente, antes de mais nada, um levantamento geral de todos os fenômenos, e não um mero inventário das coisas singulares e sensacionais — e muito menos ainda daquilo que parece original e engraçado. (p. 67)

O etnógrafo de campo deve analisar com seriedade e moderação todos os fenômenos que caracterizam cada aspecto da cultura tribal sem privilegiar aqueles que lhe causam admiração ou estranheza em detrimento dos fatos comuns e rotineiros. Deve, ao mesmo tempo, perscrutar a cultura nativa na totalidade de seus aspectos. A lei, a ordem e a coerência que prevalecem em cada um desses aspectos são as mesmas que os unem e fazem deles um todo coerente. (p. 67)

O etnógrafo que se propõe a estudar apenas a religião, ou somente a tecnologia, ou ainda exclusivamente a organização social, estabelece um campo de pesquisa artificial e acaba por prejudicar seriamente seu trabalho. (p. 67)

3. Metodologia

Estabelecido esse princípio geral, passemos agora a considerações mais detalhadas sobre metodologia. Na pesquisa de campo, como acabamos de dizer, o etnógrafo tem o dever e a responsabilidade de estabelecer todas as leis e regularidades que regem a vida tribal, tudo que é permanente e fixo, apresentar a anatomia da cultura e descrever a constituição social. Mas esses elementos, apesar de cristalizados e permanentes, não se encontram formulados em lugar nenhum. Não há códigos de lei, escritos ou expressos explicitamente; toda a tradição tribal e sua estrutura social inteira estão incorporadas ao mais elusivo dos materiais: o próprio ser humano. (p. 68)

Interação com interlocutores

Da mesma forma que os membros mais humildes de qualquer instituição moderna — seja o Estado, a Igreja, o Exército etc. — pertencem a ela e nela se encontram, sem ter visão da ação integral do todo e, menos ainda, sem poder fornecer detalhes de sua organização, seria inútil interpelar o nativo em termos sociológicos abstratos. A única diferença, no caso, é que cada uma das instituições da sociedade civilizada tem, em seu meio, elementos inteligentes, historiadores, arquivos e documentos; no caso da sociedade nativa, nada disso existe. Depois que se constata essa dificuldade, é necessário que se procure um recurso mediante o qual superá-la. O recurso para o etnógrafo é coletar dados concretos sobre todos os fatos observados e por meio deles formular as inferências gerais. (p. 68)

Embora os nativos jamais nos possam fornecer regras gerais e abstratas, há sempre a possibilidade de os interpelarmos sobre a {69} solução que dariam a determinados problemas. Assim, por exemplo, se quisermos saber seu modo de tratar ou punir os criminosos, uma pergunta direta do tipo “Como são tratados e punidos os criminosos?” é inútil — e, além de tudo, impraticável, pois não existem na linguagem nativa, ou mesmo no inglês pidgin, palavras adequadas para expressá-la. Mas um incidente imaginário — ou, melhor ainda, uma ocorrência real — estimula o nativo a expressar sua opinião e a fornecer muitas informações. (p. 68-9)

Indução

Desse material, que deve cobrir o maior número possível de fatos, a inferência é obtida por simples indução. O tratamento científico difere do senso comum, primeiro, pelo fato de que o cientista se empenha em continuar sua pesquisa sistemática e metodicamente até que ela esteja completa e contenha, assim, o maior número possível de detalhes: segundo, porque, dispondo de um cabedal científico, o investigador tem a capacidade de conduzir a pesquisa por meio de linhas de efetiva relevância e a objetivos realmente importantes. Com efeito, o treinamento científico tem por finalidade fornecer ao pesquisador um “esquema mental” que lhe sirva de apoio e permita estabelecer o roteiro a seguir em seus trabalhos. (p. 69)

Imaginemos também que, por meio de métodos indutivos, análogos ao anterior e baseados em dados concretos e específicos, o pesquisador passe a entender diferentes aspectos da vida nativa, como a liderança na guerra, nos empreendimentos econômicos, nas festividades da tribo: nisso tudo ele terá os dados necessários para formular teorias relativas ao governo e à autoridade social tribal. Na prática, a comparação dos diversos dados assim obti{70}dos, a tentativa de reuni-los num todo coerente, revela muitas vezes lacunas e falhas na informação que nos levam a novas investigações. (p. 69-70)

Dupla atividade do trabalho etnográfico

Com base em minha própria experiência, posso afirmar que muitas vezes, apenas ao fazer um esboço preliminar dos resultados de um problema aparentemente resolvido, fixado e esclarecido, é que eu deparava com enormes deficiências em meu estudo — deficiências essas que indicavam a existência de problemas até então desconhecidos e me forçavam a novas investigações. Com efeito, passei alguns meses, no intervalo entre minha primeira e segunda expedição — e bem mais de um ano entre a segunda e a terceira —, revendo o material todo que tinha em mãos e preparando, inclusive, algumas porções dele para publicação, mesmo ciente, a cada passo, de que teria de reescrevê-lo. Essa dupla atividade de trabalho construtivo e observação foi-me bastante valiosa, e sem ela não creio que teria conseguido progredir em minha pesquisa. (p. 70)

Com efeito, fiz esboços da instituição do Kula pelo menos uma meia dúzia de vezes, não só durante minha pesquisa in loco, mas também nos intervalos entre uma e outra expedição. A cada nova tentativa, novos problemas e dificuldades apareciam. (p. 70)

O uso de diagramas: "esquemas mentais" > "esquemas reais"

A coleta de dados referentes a um grande número de fatos é, pois, uma das principais fases da pesquisa de campo. Nossa responsabilidade não se deve limitar à enumeração de alguns exemplos apenas; mas sim, obrigatoriamente, ao levantamento, na medida do possível exaustivo, de todos os fatos ao nosso alcance. Na busca desses fatos, terá mais êxito o pesquisador cujo “esquema mental” for mais lúcido e completo. Sempre que o material da pesquisa o permitir, esse “esquema mental” deve, todavia, transformar-se num “esquema real” — ou seja, materializarse na forma de diagra{71}mas, planos de estudo e de pesquisa e quadros sinóticos completos. (p. 70-1)

Foi seguindo o exemplo de Seligman nesse assunto que consegui decifrar alguns dos princípios mais difíceis e complicados do Kula. Esse método de condensar em mapas ou quadros sinóticos os dados de informação deve sempre, na medida do possível, ser aplicado ao estudo de praticamente todos os aspectos da vida nativa. (p. 71)

Além dos quadros sinóticos, constitui um documento fundamental da pesquisa etnográfica o recenseamento genealógico de cada comunidade na forma de estudos detalhados: mapas, esquemas e diagramas ilustrando a posse da terra de cultivo, privilégios de caça e pesca etc. (p. 71)

Uma genealogia nada mais é do que o quadro sinótico de determinado grupo de relações de parentesco interligadas. Seu valor como instrumento de pesquisa reside no fato de que ela permite formular questões que o pesquisador levanta a si mesmo in abstracto, mas que faz no nativo de maneira concreta. (p. 71-2)

A resposta aos meus problemas abstratos eu a obtinha pela inferência com base no conjunto de casos. (p. 72)

Voltando mais uma vez à questão metodológica discutida na seção 2, quero chamar a atenção do leitor para o fato de que o método de apresentação de dados concretos em quadros sinóticos deve, antes de mais nada, ser aplicado às credenciais do etnógrafo. Em outras palavras, o etnógrafo que deseja merecer confiança deve distinguir, de maneira clara e concisa, sob a forma de um quadro sinótico, entre os resultados de suas observações diretas e as informações que recebeu indiretamente — pois seu relato inclui ambas. O quadro que apresentamos a seguir servirá como ilustração desse procedimento e auxiliará o leitor a julgar a fidedignidade de quaisquer asserções em que tenha particular interesse. Por meio desse quadro e das demais referências feitas no texto ao modo, às circunstâncias e ao grau de precisão com que cheguei a determinadas conclusões, não restarão dúvidas quanto à autenticidade das fontes de meu estudo, é o que espero. (p. 72)

Método de documentação estatística por evidência concreta: reunião de o maior número possível de casos, dipostos em um quadro sinóptico, a partir dos quais realiza-se um esboço da estrutura social

Resumindo aqui a primeira e principal questão metodológica, posso dizer que cada fenômeno deve ser estudado considerando o maior número possível de suas manifestações concretas; cada um deve ser estudado mediante um levantamento exaustivo de exemplos detalhados. Quando possível, os resultados obtidos com essa análise devem ser dispostos na forma de um quadro sinótico, o qual então será utilizado como instrumento de estudos e apresentado como documento etnológico. Por meio de documentos como esse e adotando o estudo de fatos concretos, é possível apresentar um esboço claro e minucioso da estrutura da cultura nativa, em seu sentido mais lato, e de sua constituição social. Esse método pode chamar-se método de documentação estatística por evidência concreta. (p. 74)

Fatos íntimos ~ tempo

Há, todavia, um aspecto em que o trabalho de amadores frequentemente se sobressai: em sua apresentação de fatos íntimos da vida nativa, de certas facetas com as quais só nos podemos familiarizar quando há um contato muito estreito com os nativos durante um longo período de tempo. (p. 74)

Limites do levantamento de dados ~ survey

Em certos tipos de pesquisa científica — em especial o que se costuma chamar “levantamento de dados” ou survey —, é possível apresentar, por assim dizer, um excelente esqueleto da constituição tribal, mas ao qual faltam carne e sangue. Aprendemos muito a respeito da estrutura social nativa, mas não conseguimos perceber ou imaginar a realidade da vida humana, o fluxo regular dos acontecimentos cotidianos, as ocasionais demonstrações de excitação em relação a uma festa, cerimônia ou fato peculiar. Ao desvendar as regras e as regularidades dos costumes nativos e ao obter do conjunto de fatos e de asserções nativas uma fórmula exata que os traduza, verificamos que essa própria precisão é estranha à vida real, a qual jamais adere rigidamente a nenhuma regra. Os princípios precisam ser suplementados por dados referentes ao modo como determinado costume é seguido, ao comportamento na obediência as regras que o etnógrafo formulou com tanta precisão e às próprias exceções tão comuns nos fenômenos sociológicos. (p. 75)

Limites dos interlocutores nativos

Se todas as conclusões forem baseadas única e exclusivamente no relato de informantes ou inferidas de documentos objetivos, será logicamente impossível 'suplementá-las com dados de comportamento real. Eis por que certos trabalhos de amadores que viveram muitos anos entre os nativos — como negociantes e fazendeiros instruídos, médicos e funcionários e, finalmente (mas não menos importantes), os poucos missionários inteligentes e de mentalidade aberta aos quais a etnografia deve tanto — superam em plasticidade e vivacidade a maioria dos relatos estritamente científicos. Desde que, porém, o pesquisador especializado possa adotar as condições de vida anteriormente descritas, estará muito mais habilitado a entrar em contato íntimo com os nativos do que qualquer residente branco da região. (p. 75)

Vivendo na aldeia, o etnógrafo é capaz de preencher "o vazio das construções abstratas" com a "carne e o sangue da vida real"

Vivendo na aldeia, sem quaisquer responsabilidades a não ser observar a vida nativa, o etnógrafo vê os costumes, as cerimônias, as transações etc. muitas e muitas vezes; obtém exemplos de suas crenças, como os nativos realmente as vivem. Então, a carne e o sangue da vida real preenchem o esqueleto vazio das construções abstratas. (p. 75)

É por essa razão que o etnógrafo, trabalhando em condições como as que descrevemos, é capaz de adicionar algo essencial ao esboço simplificado da constituição tribal, suplementando-o com todos os detalhes referentes ao comportamento, ao meio ambiente e aos pequenos incidentes comuns. Ele é capaz, em cada caso, de estabelecer a diferença entre os atos públicos e privados; de saber como os nativos se comportam em suas reuniões ou assembleias públicas e que aparência elas têm; de distinguir entre um fato corriqueiro e uma ocorrência singular ou extraordinária; de saber se os nativos agem em determinada ocorrência com sinceridade e pureza de alma ou se a consideram apenas uma brincadeira; se dela participam com total desinteresse ou com dedicação e fervor. (p. 76)

Os imponderáveis da vida real

Em outras palavras, há uma série de fenômenos de suma importância que de forma alguma pode ser registrada apenas com o auxílio de questionários ou documentos estatísticos, mas que deve ser observada em sua plena realidade. A esses fenômenos podemos dar o nome de “os imponderáveis da vida real”. Pertencem a essa classe de fenômenos: a rotina do trabalho diário do nativo; os detalhes de seus cuidados corporais; o modo como prepara a comida e se alimenta; o tom das conversas e da vida social ao redor das fogueiras; a existência de hostilidade ou de fortes laços de amizade; as simpatias ou aversões momentâneas entre as pessoas; a maneira sutil, porém inconfundível, como a vaidade e a ambição pessoal se refletem no comportamento de um indivíduo e nas reações emocionais daqueles que o cercam. Todos esses fatos podem e devem ser formulados cientificamente e registrados; entretanto, é preciso que isso não se transforme numa simples anotação superficial de detalhes, como costuma ser feito por observadores comuns, mas que seja acompanhado de um esforço para atingir a atitude mental que neles se expressa. É esse o motivo por que o trabalho de observadores cientificamente treinados, aplicado ao estudo consciencioso dessa categoria de fatos, poderá, acredito, trazer resultados de inestimável valor. Até o presente, esse tipo de trabalho vem sendo feito apenas por amadores — e, de maneira geral, portanto, com resultados medíocres. (P. 76)

Com efeito, se nos lembrarmos de que esses fatos imponderáveis, porém importantíssimos, da vida real são parte integrante da substância da fábrica social, se nos lembrarmos de que neles estão entrelaçados os numerosos fios que vinculam a família, o clã, {77} a aldeia e a tribo, sua importância se tornará evidente. Os vínculos mais cristalizados dos agrupamentos sociais — como rituais específicos, deveres legais e econômicos, obrigações mútuas, presentes cerimoniais, demonstrações formais de respeito —, embora igualmente importantes para o pesquisador, não são, todavia, sentidos tão intensamente pelo indivíduo que os tem de pôr em prática. (p. 76-7)

O fato de que talvez venhamos a receber a herança de um parente, ou o fato de que temos a obrigação de acompanhar o funeral de outro, embora sociologicamente façam parte da definição de família e de vida familiar, geralmente são relegados a um último plano em nossa perspectiva pessoal do que de fato a família significa para nós. (p. 77)

Lacuna quanto ao estudo da vida íntima dos nativos

Exatamente o mesmo se aplica à comunidade nativa. Portanto, se o etnógrafo quer realmente trazer a seus leitores uma imagem vívida da vida nativa, não poderá, de forma alguma, negligenciar esses aspectos. Nenhum aspecto — seja o íntimo, seja o legal — deve ser menosprezado. Aos relatos etnográficos, entretanto, via de regra, tem faltado um ou outro aspecto e, até o presente momento, em poucos relatos se discutiu adequadamente o aspecto íntimo da vida nativa. Não só no relacionamento pessoal familiar, mas em todo relacionamento social — seja ele entre os nativos de uma tribo ou entre os membros amistosos ou hostis de tribos diferentes —, existe esse lado íntimo, que se expressa nos detalhes do trato ou relacionamento pessoal, no tom do comportamento do indivíduo diante de outro. Esse aspecto é bem diverso do quadro legal e cristalizado das relações sociais — e, como tal, precisa ser estudado e apresentado separadamente. (p. 77)

Registro dos detalhes e do tom do comportamento

De igual forma, ao estudarmos os atos conspícuos da vida tribal — como cerimônias, rituais e festividades —, devemos apresentar também os detalhes e o tom do comportamento, e não exclusivamente o simples esboço dos acontecimentos. (p. 77)

Se, porém, observarmos e registrarmos as particularidades do comportamento das pessoas, poderemos de imediato determinar o grau de vitalidade do costume. (p. 78)

O comportamento é, indubitavelmente, um fato, e um fato relevante passível de análise e de registro. Tolo e míope é o cientista que, ao deparar com todo tipo de fenômenos prontos a serem coletados, permite que eles se percam, mesmo se, no momento, não percebesse a que fins teóricos poderiam servir! (p. 78)

Método de observação e registro dos imponderáveis da vida real e do comportamento típico

Em relação ao método adequado para observar e registrar esses aspectos imponderáveis da vida real e do comportamento típico, não resta dúvida de que a subjetividade do observador interfere de modo mais marcante do que na coleta dos dados etnográficos cristalizados. Porém, mesmo nesse particular, devemos nos empenhar no sentido de deixar que os fatos falem por si mesmos. Se, ao fazer nossa ronda diária da aldeia, observamos que certos pequenos incidentes, o modo característico como os nativos se alimentam, conversam e trabalham, ocorrem repetidas vezes, devemos registrá-los o quanto antes. É importante também que esse trabalho de coleta e registro de impressões seja feito desde o início, ou seja, desde os nossos primeiros contatos com os nativos de determinado distrito — e isso porque certos fatos, que impressionam enquanto constituem novidade, deixam de ser notados à medida que se tornam familiares. Outros, só podem ser percebidos depois de algum tempo, quando então já conhecemos bem as condições locais. (p. 78)

O diário de campo

O diário etnográfico, feito sistematicamente no curso dos trabalhos num distrito, é o instrumento ideal para esse tipo de estudo. E se, paralelamente ao registro de fatos normais e típicos, fizermos também o registro dos acontecimentos que representam ligeiros ou acentuados desvios da norma, estaremos perfeitamente habilitados a determinar os dois extremos da escala da normalidade. (p. 78)

Ao observarmos cerimônias ou quaisquer outras ocorrências tribais, devemos não só anotar os acontecimentos e detalhes ditados pelos costumes e pela tradição como pertencentes à própria essência do ato, mas também registrar, de maneira cuidadosa e exata, as atitudes de atores e espectadores, umas após as outras. Esquecendo-se por alguns momentos de que conhece e entende a estrutura da cerimônia, bem como os dogmas que a fundamentam, o etnógrafo deve tentar colocar-se como parte de uma assembleia de seres humanos que se comportam com seriedade ou alegria, com fervorosa concentração ou frivolidade e tédio; que estão com a mesma disposição de espírito em que ele os encontra todos os dias ou então em atitude de grande tensão ou excitabilidade; e assim por diante. Com a atenção constantemente voltada para esse aspecto da vida tribal, e com o empenho persistente de o registrar e expressar em termos de fatos reais, o etnógrafo acumulará uma quantidade enorme de material informativo autêntico e expressivo. Estará, assim, habilitado a dar ao ato seu devido lugar na esfera da vida nativa, isto é, saberá dizer se é normal ou excepcional, se nele os nativos se comportam como de costume ou se acarreta mudanças no comportamento deles. Estará, por fim, capacitado a trazer tudo isso, de maneira clara e convincente, a seus leitores. (p. 79)

Importância da vivência

Entretanto, nesse tipo de pesquisa, recomenda-se ao etnógrafo que, de vez em quando, deixe de lado a máquina fotográfica, o lápis e o caderno e participe pessoalmente do que está acontecendo. Ele pode tomar parte nos jogos dos nativos, acompanhá-los em suas visitas e passeios ou sentar-se com eles, ouvindo e participando das conversas. Não acredito que todas as pessoas possam fazer isso tudo com igual facilidade — talvez a natureza do eslavo seja mais flexível e mais espontaneamente selvagem que a do europeu ocidental —, mas, embora o grau de sucesso seja variável, a tentativa é possível para todos. Esses mergulhos na vida nativa — que pratiquei com frequência não apenas por amor à minha profissão, mas também porque precisava, como homem, da companhia de seres humanos — sempre me deram a impressão de permitir uma compreensão mais fácil e transparente do comportamento nativo e de sua maneira de ser em todos os tipos de transações sociais. O leitor encontrará, ilustradas nos capítulos a seguir, todas essas observações metodológicas. (p. 79)

O ponto de vista nativo (~mente dos nativos)

Além do esboço firme da constituição tribal e dos atos culturais cristalizados que formam o esqueleto, além dos dados referentes à vida cotidiana e ao comportamento habitual que são, por assim izer, sua carne e seu sangue, há ainda que se registrar o espírito dos nativos — os pontos de vista, as opiniões, as palavras: pois em todo ato da vida tribal existe, primeiro, a rotina estabelecida pela tradição e pelos costumes; em seguida, a maneira como se desenvolve essa rotina; e, por fim, o comentário a respeito dela, contido na mente dos nativos. O ser humano que se submete a várias obrigações habituais, que segue uma linha tradicional de ação, o faz impulsionado por certos motivos, movido por determinados sentimentos e guiado por certas ideias. Tais ideias, sentimentos e impulsos são moldados e condicionados pela cultura em que os encontramos e são, portanto, uma peculiaridade étnica da sociedade em questão. Deve-se, portanto, empenhar em seu estudo e registro. (p. 80)

Mas isso é possível? Todos esses estados subjetivos não serão demasiadamente elusivos e informes? Apesar do fato de que as pessoas em geral sentem ou pensam ou experimentam certos estados psicológicos em associação à execução de seus atos habituais, a maioria não é capaz de formulá-los, ou seja, expressálos em palavras. Esse ponto, que, por certo, temos de admitir como verdadeiro, é talvez o nó górdio no estudo dos fatos da psicologia social. Sem desamarrá-lo ou cortá-lo, ou seja, sem tentar dar ao problema uma solução teórica, e sem aprofundar-me no campo da metodologia geral, entrarei diretamente na questão de como resolver, de maneira prática, algumas das dificuldades relacionadas a questão. (p. 80)

Os modos estereotipados de pensar e sentir como objeto da antropologia; influência do ambiente social e cultural; formulação de maneira vívida e convincente.

Em primeiro lugar, devemos partir do fato de que o objeto de nosso estudo são os modos estereotipados de pensar e sentir. Como sociólogos, não nos interessamos pelo que A ou B possa sentir como indivíduos no curso acidental de suas próprias experiências; interessamo-nos, sim, apenas por aquilo que eles sentem e pensam como membros de uma dada comunidade. Sob esse ponto de vista, seus estados mentais recebem certo timbre e acabam sendo estereotipa{81}dos pelas instituições em que vivem, pela influência da tradição e do folclore, pelo próprio veículo do pensamento, ou seja, pela língua. O ambiente social e cultural em que se movem força-os a pensar e a sentir de maneira específica. (p. 80-1)

O terceiro mandamento da pesquisa de campo é, pois, descobrir os modos de pensar e de sentir típicos, correspondentes as instituições e à cultura de determinada comunidade, e formular os resultados de maneira vívida e convincente. (p. 81)

A língua nativa

Ao trabalhar com a língua kiriwina, encontrei certa dificuldade em anotar o que os nativos diziam, por meio da tradução direta — método que, no início, havia adotado. Com a tradução, o texto muitas vezes ficava destituído de todas as suas características importantes — desintegravam-se, por assim dizer, os pontos essenciais. Assim, aos poucos fui forçado a anotar certas sentenças importantes exatamente como os nativos as proferiam na língua tribal. À medida que meus conhecimentos da língua foram aumentando, fui fazendo minhas anotações cada vez mais em kiriwina, até que, por fim, passei a escrever exclusivamente nessa língua, registrando com rapidez cada frase, palavra por palavra. Ao atingir esse ponto, reconheci também que estava assim adquirindo, paralelamente, um abundante material linguístico, bem como uma série de documentos etnográficos que deveriam ser reproduzidos como eu os havia registrado, além de utilizados nos {82} registros finais da minha pesquisa. Esse corpus inscriptionum kiriwiniensium pode ser utilizado não só por mim, mas por todos aqueles que, com seus conhecimentos mais profundos e sua habilidade de interpretá-lo, poderão encontrar pontos que escaparam à minha atenção, da mesma forma que outros corpora constituem a base de várias interpretações dadas a culturas antigas e pré-históricas; só que essas inscrições etnográficas são todas claras e decifráveis, já foram quase todas traduzidas integralmente e foram enriquecidas de comentários ou scholia obtidos de fontes vivas. (p. 81-2)

Os três caminhos da pesquisa etnográfica

Nossas considerações indicam que os objetivos da pesquisa de campo etnográfica podem, pois, ser alcançados por três diferentes caminhos:

  1. A organização da tribo e a anatomia de sua cultura devem ser delineadas de modo claro e preciso. O método de documentação concreta e estatística fornece os meios para obtê-las.
  2. Esse quadro precisa ser completado pelos fatos imponderáveis da vida real, bem como pelos tipos de comportamento, coletados por meio de observações detalhadas e minuciosas que só são possíveis mediante o contato íntimo com a vida nativa e que devem ser registradas em algum tipo de diário etnográfico.
  3. O corpus inscriptionumuma coleção de asserções, narrativas típicas, palavras características, elementos folclóricos e fórmulas mágicas — deve ser apresentado como documento da mentalidade nativa.

(p. 82)

Objetivo da pesquisa etnográfica: apreender o ponto de vista do nativo

Essas três abordagens conduzem ao objetivo final da pesquisa, que o etnógrafo jamais deve perder de vista. Em breves palavras, esse objetivo é apreender o ponto de vista dos nativos, seu relacionamento com a vida, sua visão de seu mundo. (p. 82)

Estudar as instituições, os costumes e os códigos ou estudar o comportamento e a mentalidade do homem, sem atingir seus desejos e seus sentimentos subjetivos e sem o intuito de compreender o que é, para ele, a essência de sua felicidade, é, em minha opinião, perder a maior recompensa que se possa esperar do estudo do homem. (p. 83)

Talvez, ao lermos o relato desses costumes primitivos, possamos ter um sentimento de solidariedade pelos esforços e ambições desses nativos. Talvez a mentalidade humana se revele a nós por meio de caminhos nunca antes trilhados. Talvez, pela compreensão de uma forma tão distante e estranha da natureza humana, possamos entender nossa própria natureza. Nesse caso — e somente nesse caso —-, seria justificável sentirmos que valeu a pena entender esses nativos, suas instituições e seus costumes e que pudemos auferir algum proveito com nosso estudo sobre o Kula. (p. 83)


  1. Malinowski, Bronisław. 2018 [1922]. “Tema, método e objetivo desta pesquisa”. em Argonautas do pacífico ocidental. Ubu Editora.